Por: Vilmar Dal Bó
Em 1993, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil abordou a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Onde moras?” (Jo 1,38), convidando a sociedade a olhar para a grave questão da habitação digna e a refletir sobre a responsabilidade de todos diante da exclusão habitacional.
Por sua vez, em 2026, a campanha retomou a temática da habitação com o mesmo tema — “Fraternidade e Moradia” —, mas com um lema diferente: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A proposta amplia a reflexão iniciada trinta e três anos antes, ressaltando a urgência de garantir moradia digna como direito social e, teologicamente, fundamentando essa luta na Encarnação de Cristo, que se fez presente na realidade humana e, assim, ilumina o compromisso com a dignidade de toda pessoa humana.
De 1993 a 2026, a intuição permanece a mesma: à luz da dimensão social da fé, denunciar uma ferida social que afeta milhões de brasileiros e que, constitucionalmente, é um direito assegurado pelo artigo 6º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
Diante dessa realidade, alguns passos concretos foram dados no campo das políticas públicas habitacionais. Entre eles, destaca-se o Minha Casa Minha Vida, criado pelo Governo Federal com a finalidade de ampliar o acesso à moradia digna, especialmente para famílias de baixa renda. O programa representa uma tentativa de efetivação do direito social à moradia, articulando subsídios, financiamento facilitado e parcerias com estados e municípios. Ainda que enfrente desafios estruturais — como limitações orçamentárias, qualidade construtiva e localização periférica de empreendimentos —, a iniciativa constituiu um marco na política habitacional brasileira ao possibilitar que milhões de famílias realizassem o sonho da casa própria e superassem situações de vulnerabilidade.
Em Santa Catarina, a antiga Companhia de Habitação do Estado de Santa Catarina (Cohab), hoje extinta, foi a porta de entrada para muitas famílias em situação de vulnerabilidade adquirirem a casa própria. Atualmente, o programa Casa Catarina tenta suprir essa lacuna que permanece viva nos municípios catarinenses.
Contudo, novos desafios emergem. Se antes a dificuldade de aquisição do primeiro imóvel e o acesso à moradia digna afetavam sobretudo os mais vulneráveis, hoje o problema alcança também a classe média e se torna um dilema para a juventude. A especulação imobiliária e as altas taxas de financiamento adiam o sonho de muitas famílias, especialmente das mais jovens.
Os imóveis foram compactados; a arquitetura assumiu um modelo urbano verticalizado; o preço do metro quadrado atinge valores exorbitantes; e até mesmo a nomenclatura foi reformulada: apartamentos de um quarto e quitinetes tornaram-se studios, gardens e lofts, glamorizando o que se apresenta como um “novo conceito de morar”.
O fato é que a problemática da moradia digna persiste. Essa realidade torna-se ainda mais evidente nos grandes centros urbanos e nas zonas periféricas e de risco: casebres, barracos, palafitas e marquises — expressões concretas de indignidade que comprometem a qualidade de vida e o pleno desenvolvimento da pessoa humana.
O debate sobre moradia digna e políticas habitacionais é, portanto, necessário e urgente. Importa refletir teologicamente sobre a moradia como lugar teleológico — manifestação, revelação, epifania de Deus — e, a partir dessa compreensão, provocar consciências, transformando indiferença em empenho ético e compromisso político para o enfrentamento dessa realidade.
Vilmar Dal Bó, Doutor em Ciências Econômicas e Políticas (IUS), Florença, Itália.


