SC terá safra recorde de 602 mil toneladas, mas preço pago cobre só metade do custo; deputados buscam renegociar dívidas do setor
A crise da cebola em Santa Catarina tem mobilizado a atenção dos parlamentares e representantes do setor produtivo. Na manhã desta quarta-feira (25), a Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Alesc promoveu um amplo debate sobre o cenário da cadeia produtiva, ouvindo produtores, prefeitos, entidades e órgãos técnicos em busca de encaminhamentos para amenizar os prejuízos enfrentados no campo.
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Durante a reunião, a analista socioeconômica do Centro Socioeconômico e Planejamento Agrícola da Epagri/Cepa, Lilian Bastian, apresentou um panorama detalhado da produção de cebola no Brasil entre 2020 e 2025, destacando o protagonismo catarinense. Segundo os dados, Santa Catarina se mantém como o principal produtor nacional, respondendo por cerca de 28% da produção em 2020 e com estimativa de chegar a aproximadamente 32% em 2025 — números ainda preliminares, baseados em levantamentos próprios e de instituições como IBGE, Cepea e órgãos estaduais do Sul do país.
Produção Recorde e Defasagem de Preços
A analista também ressaltou que a produção estadual deve atingir um recorde superior a 602 mil toneladas, favorecida por boas condições climáticas e elevada qualidade do produto. A região de Ituporanga e do Alto Vale do Itajaí concentra cerca de 75% da produção catarinense, seguida pelo Alto Vale do Rio do Peixe, com cerca de 12%.
Apesar do aumento na produção e na produtividade, estimada em média em 31,4 mil quilos por hectare, o cenário econômico preocupa. Conforme os dados apresentados, aproximadamente 40% da produção já foi comercializada, enquanto muitos produtores optam por segurar a venda à espera de melhores preços. A média de preço registrada entre janeiro e fevereiro foi de cerca de R$ 0,72 por quilo, enquanto o custo estimado pode chegar a R$ 1,40 por quilo, evidenciando prejuízo pelo segundo ano consecutivo.
Relatos de Prejuízos no Campo
A situação foi reforçada pelo produtor Arny Morh, com 40 anos de atuação na cultura da cebola, que relatou nunca ter enfrentado dois anos seguidos de perdas tão significativas. Segundo ele, mesmo com uma safra produtiva, os agricultores estão recebendo cerca de 50% do custo de produção. “Para cobrir os custos, precisaríamos vender a cebola entre R$ 1,40 e R$ 1,50, mas hoje estamos vendendo por cerca de R$ 1,00, com classificações que chegam a R$ 0,70 ou menos”, afirmou.
Prefeitos de municípios produtores reforçaram a gravidade da situação. O prefeito de Lebon Régis, Marcelo Spautz, afirmou que os prejuízos acumulados não são pontuais, mas resultado de sucessivos anos difíceis. Já o prefeito de Ituporanga, Geison Kurtz, relatou preocupação com a desistência de produtores tradicionais da atividade. Segundo ele, a crise afeta diretamente arrecadação, comércio e serviços locais.
Concorrência Externa e Propostas Estruturais
Outro ponto levantado no debate foi o aumento da oferta interna e a concorrência com importações, especialmente da Argentina, que também registra supersafra. O deputado José Milton Scheffer (PP) enfatizou que a crise atual exige soluções de médio e longo prazo, incluindo a ampliação do prazo de vencimento dos financiamentos rurais para pelo menos 180 dias após a colheita e a revisão de regras comerciais no Mercosul.
Na mesma linha, o deputado Mauro De Nadal (MDB) destacou que a segurança econômica do produtor precisa ser prioridade. “A busca da ampliação da capacidade de armazenamento pode ajudar a reduzir a pressão de preços em períodos de grande oferta.” Nadal fez um alerta: “A prorrogação de dívidas não resolve o problema estrutural, apenas joga o problema para frente.”
Impacto Regional e Apoio ao Crédito
Já o deputado Mário Motta (PSD) defendeu medidas emergenciais e estruturais, como apoio à comercialização, agregação de valor ao produto e diversificação produtiva no Alto Vale do Itajaí. O presidente da Facisc, Elson Otto, sugeriu apoio emergencial com linhas de crédito específicas e medidas para equilibrar a competitividade frente ao mercado externo.
Encaminhamentos e Sucessão Familiar
Entre os encaminhamentos definidos, o presidente da Comissão de Agricultura, deputado Altair Silva (PP), anunciou a elaboração de um documento com sugestões ao Banco Central e ao Ministério da Agricultura, solicitando renegociação de dívidas com juros compatíveis. O colegiado aprovou, ainda, a realização de uma audiência pública na região produtora.
Ainda durante a reunião, o presidente da Epagri, Dirceu Leite, apresentou o trabalho realizado para manter os jovens no campo. “O Governo de Santa Catarina está investindo para que eles se sintam seguros e tenham sucesso em suas propriedades”, enfatizou Leite, destacando a coordenação dos Cedups e Casas Familiares Rurais, que atendem mais de dois mil alunos.


