A formalização da chapa do governador Jorginho Mello à reeleição, com dois nomes do PL ao Senado, redesenha o tabuleiro político catarinense com uma clareza quase didática: há vencedores momentâneos — e há os que foram publicamente deixados à margem. Em política, a forma pesa tanto quanto o conteúdo, e o gesto do governador não apenas reorganiza alianças, como impõe dilemas estratégicos profundos a partidos tradicionais.
O efeito imediato é a movimentação natural das siglas que ficaram fora do arranjo principal. Mas o desfecho desse rearranjo está longe de ser simples — e pode produzir mais desgaste do que convergência.
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Escanteados em público
Ao optar por uma composição integralmente alinhada ao seu partido, o PL, ao Senado, o governador deixou fora do núcleo da chapa tanto o MDB quanto o Progressistas.
O gesto tem leitura política inequívoca: foi um “chega pra lá” simultâneo, à luz do dia, sem mediações, que obriga ambas as legendas a buscarem protagonismo próprio. E partidos com história e capilaridade não costumam aceitar papel secundário por muito tempo.
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Convergência improvável
A tese de uma aproximação entre MDB e PP para sustentar a candidatura de João Rodrigues ao governo esbarra num obstáculo clássico: rivalidades históricas profundas.
Em Santa Catarina, essas siglas sempre se posicionaram em campos opostos. A memória política — tanto do eleitor quanto das bases — não é curta, e alianças forçadas costumam gerar desconforto, desmobilização e voto frio.
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O peso da memória eleitoral
Experiências anteriores mostram que arranjos entre adversários tradicionais tendem a produzir rejeição. O eleitorado costuma reagir mal quando antagonistas históricos se tornam aliados circunstanciais.
Não se trata apenas de percepção pública. Militâncias, lideranças regionais e quadros intermediários frequentemente resistem, criando ruídos internos que comprometem a performance eleitoral.
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Memória
Em 2020, Angela Amin, ex-prefeita por dois mandatos, recebeu o apoio do então emedebista Dário Berger. Ela ficou num vexatório quarto lugar, e a coligação não elegeu sequer um vereador.
Não aprenderam nada com a própria história — essa é a grande verdade.
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Anos 1980
Em 1982, Esperidião Amin derrotou Jaison Barreto na disputa pelo governo do Estado. Amin concorreu pelo PDS; Jaison, pelo PMDB. A diferença foi de apenas 12,5 mil votos — uma margem estreita.
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Ajuntamento
Em 1985, os dois se reuniram — já com Jaison filiado ao PDT — e formaram a Aliança Social Trabalhista. Francisco de Assis Filho, então deputado estadual e secretário-chefe da Casa Civil de Esperidião, foi o nome escolhido para disputar a prefeitura da Capital, tendo como vice Manoel Maneca Dias, ex-deputado, ligado a Leonel Brizola e Doutel de Andrade.
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Azarão
O resultado? Edison Andrino se elegeu pelo MDB com mais de 16 mil votos de vantagem.
Então, caro leitor, o eleitor torce o nariz, fica contrariado quando percebe que políticos que se enfrentavam, que rivalizavam, que eram adversários ferrenhos, tornam-se aliados da noite para o dia.
E não é só o eleitorado. As respectivas militâncias partidárias igualmente resistem — essa é a grande realidade.
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Risco para o projeto de oposição
Se a candidatura de João Rodrigues vier a se sustentar numa frente ampla reunindo MDB e PP, o movimento pode se transformar em armadilha.
Uma coligação construída mais por exclusão — reunindo quem foi preterido — do que por identidade programática tende ao fracasso.
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Tiro no pé
Suponhamos que MDB e PP fechem com João Rodrigues, compondo com Esperidião Amin ao Senado, enquanto o MDB indicaria o vice na chapa encabeçada pelo prefeito de Chapecó.
Nesse caso, teríamos o MDB pedindo voto para Esperidião Amin ao Senado; e o PP e o próprio Amin pedindo voto para candidaturas emedebistas.
A coerência política ficaria, no mínimo, tensionada.
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Projeção
Caso essa hipótese — ainda remota — se concretize, ela poderá levar João Rodrigues a uma performance abaixo da de Gean Loureiro em 2022, quando terminou em quarto lugar.
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Janela e defecções
Há ainda um fator pragmático: a janela partidária. Uma guinada estratégica do MDB em direção a uma aliança pouco orgânica pode estimular migrações de lideranças, especialmente detentores de mandato preocupados com a própria viabilidade eleitoral.
Pelo menos três deputados estaduais do MDB avaliam essa possibilidade de migrar para outra legenda.
Isso ampliaria a erosão de um partido que já enfrenta o desafio de manter protagonismo num cenário cada vez mais fragmentado.
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O que sobra
No fim das contas, a equação é simples e dura: a oposição tende a trabalhar com o espaço político que não foi ocupado pelo governador.
Mas construir um projeto competitivo apenas com “o que sobrou” é sempre mais difícil do que parece — e exige coesão, discurso e estratégia que, até aqui, ainda não se mostram plenamente alinhados.
A conferir.


