A movimentação do presidente Lula para tentar atrair o MDB de volta ao seu projeto eleitoral não é casual nem meramente simbólica. Ela parte de um diagnóstico político claro: o cenário de 2026 tende a ser mais fragmentado, mais imprevisível e mais dependente de alianças de centro do que foi a disputa anterior. Se, em 2022, Geraldo Alckmin cumpriu o papel de sinalização ao mercado, ao empresariado e ao eleitor moderado, agora o Planalto avalia que será necessário algo além — um movimento que provoque fissuras no bloco adversário e amplie o arco de sustentação institucional.
Nesse contexto, o MDB surge como peça-chave. Trata-se do partido com maior capilaridade municipal do país, presença consistente no Congresso e tradição de ocupar o centro do tabuleiro político. Trazer o MDB para a chapa presidencial, especialmente na vice, significaria mais do que tempo de TV: representaria um gesto de reaproximação com o chamado “centrão tradicional” e uma tentativa de esvaziar o campo da centro-direita.
Missão paulista
As declarações recentes de Lula sobre Fernando Haddad e Geraldo Alckmin terem “missão em São Paulo” são reveladoras. Haddad foi derrotado por Tarcísio de Freitas no segundo turno de 2022, e Alckmin, ex-governador do Estado por quatro mandatos, hoje ocupa a Vice-Presidência. Ao elogiá-lo publicamente e, ao mesmo tempo, sinalizar novos arranjos, Lula indica que o papel desempenhado por Alckmin na última eleição pode ter sido cumprido.
Reforço
A leitura no Planalto é que o gesto ao centro feito em 2022 precisa agora ser complementado por um movimento de natureza mais política do que simbólica — algo que interfira diretamente na correlação de forças do Congresso e nos palanques estaduais.
Precedente histórico
A aproximação com o MDB também tem lastro na experiência passada. O partido foi peça central nas chapas de Dilma Rousseff em 2010 e 2014, quando Michel Temer ocupou a Vice-Presidência. A aliança garantiu governabilidade inicial, ainda que o desfecho tenha sido traumático, com o impeachment de 2016.
Raposa
Lula sabe dos riscos, mas também conhece a utilidade do MDB como fiador de estabilidade institucional e ponte com o Legislativo. A política, nesse caso, fala mais alto que as cicatrizes do passado.
Resistências internas
O problema é que o MDB não é um bloco monolítico. O partido funciona como uma federação de interesses estaduais. Há alas simpáticas ao governo, como os grupos de Alagoas e do Pará, além da influência da ministra Simone Tebet, que integra o primeiro escalão. Mas há também diretórios fortemente alinhados à centro-direita, que veem com desconfiança uma adesão formal ao lulismo.
No voto
A decisão, se vier, será fruto de convenção — e convenção emedebista nunca é protocolo, é disputa real de forças.
Fator Temer
Michel Temer, embora fora da linha de frente, ainda é referência para parcelas expressivas do partido. Sua relação histórica com Lula é marcada por desconfiança mútua desde o impeachment de Dilma. Mesmo sem comando formal absoluto, o ex-presidente segue influente nos bastidores e pode atuar para frear um alinhamento automático.
Plano B
Se o MDB não fechar, o Planalto não ficará sem alternativas. Movimentos recentes indicam tentativa de diálogo com setores de outras siglas do centro e da direita pragmática. A lógica é clara: provocar divisões no campo adversário, reduzir a coesão de um bloco oposicionista e ampliar a margem de manobra no segundo turno.
Direita fragmentada
Do outro lado, a oposição ainda não apresenta unidade. Lideranças regionais, governadores presidenciáveis e partidos com projetos próprios disputam espaço antes mesmo da definição de uma candidatura hegemônica. Essa pulverização reduz a capacidade de construção de uma frente coesa já no primeiro turno.
Lula aposta justamente nisso: quanto mais dispersão no campo adversário, maior a chance de chegar competitivo ao segundo turno, mesmo com índices de rejeição elevados.
Jogo arriscado
A estratégia do Planalto é agressiva e revela consciência das dificuldades eleitorais. Buscar o MDB não é movimento de conforto, é de necessidade. Ao mesmo tempo, a fragmentação da direita e as disputas internas nesse campo funcionam, na prática, como um aliado indireto do presidente.
Blocos
No fim das contas, a eleição pode ser decidida menos pela força individual dos candidatos e mais pela capacidade de formar — ou desmanchar — blocos. E é exatamente nesse terreno que Lula tenta, mais uma vez, jogar pesado.

