Por Vilmar Dal Bó
Nos últimos anos, a sociedade e a comunidade científica têm empenhado esforços no combate a premissas duvidosas e a sentenças parciais, desprovidas de fundamentação metodológica, que acabam por alimentar fundamentalismos anti-históricos e um certo “intelectualismo” sem sabedoria.
Nesse contexto, chama-me a atenção uma espécie de apagamento histórico em torno do acontecimento do Natal, que tangencia os limites do negacionismo. Refiro-me a uma cultura secularizada que celebra o Natal com presentes, laços e fitas — como o mercado aprecia —, mas demonstra desconforto, e até incômodo, ao reconhecer que o Natal é a festa do nascimento de um menino chamado Jesus, que, para os cristãos, é Deus feito carne.
Não se trata de professar um credo, mas de reconhecer o acontecimento histórico que fundamenta e atualiza a celebração do Natal. O que impressiona é que, cada vez mais, escolas e instituições da sociedade civil tentam minimizar ou apagar esse dado objetivo, buscando atalhos para evitar dizer aquilo que parece uma exigência elementar de honestidade histórica: o Natal celebra o nascimento de um menino chamado Jesus. A afirmação de sua divindade — ou a negação dela — pertence ao campo próprio da ciência teológica.
Pode-se discutir a precisão da data do acontecimento, associá-lo a antigas festas da luz ou debater imprecisões geográficas e territoriais relativas ao local em que o fato ocorreu. Contudo, furtar ao debate os dados objetivos acerca do Natal, sob a crença de que isso facilitaria o diálogo ou favoreceria um Estado livre e laico no mundo ocidental, não é — no mínimo — uma atitude intelectualmente honesta; trata-se de negacionismo.
É possível, e mesmo desejável, ampliar o debate reconhecendo que, independentemente do credo professado, o acontecimento histórico que dá origem ao Natal não pode ser suprimido da realidade sem prejuízo da verdade histórica e do próprio diálogo plural que se pretende preservar.
E, no fim das contas, a plástica do Natal encerra uma mensagem profundamente provocativa: um menino pobre, nascido em um estábulo, em meio aos animais, que vem ao mundo para ser Rei. E que Rei é esse que não tem palácio nem exército? Algo tão desconcertante e surreal que, muitas vezes, o caminho mais confortável parece ser negá-lo ou simplesmente ignorá-lo. Um verdadeiro “apagão” histórico-cultural.
Vilmar Dal Bó é Doutor em Ciências Econômicas e Políticas pelo Instituto Universitário Sophia (IUS), Florença Itália.


