Em qualquer país que vive os preceitos democráticos, a imprensa exerce papel fundamental na fiscalização do poder e na formação da opinião pública. Ocorre que há um fator muitas vezes invisível a população, que pode influenciar o conteúdo editorial: a verba publicitária.
Os recursos publicitários sempre foram uma das principais origens de financiamento dos meios de comunicação. Grandes grupos, como nacionais e internacionais, dependem, em maior ou menor grau, desses recursos para manter suas folhas de pagamento, máquinas funcionando, etc. O problema maior aparece quando começa a existir uma dependência financeira, que interfere na isenção jornalística.
Em tese, o que deveria sempre ocorrer, seria a separação entre a área comercial e a área editorial, como um muro intransponível. No dia a dia, no entanto, pelas altas despesas, aliada a influência política e econômica, principalmente, essa separação pode se tornar muito frágil, rompendo facilmente.
Grandes anunciantes, como os governos, possuem poder econômico capaz de pressionar veículos, liberando e quantificando os recursos, no poder discricionário, sem regras rígidas e transparentes. Um breve comentário quanto a eventual retirada de anúncios pode representar impacto imediato e significativo, sobretudo para meios de comunicação regionais e com tendência independente.
A questão se torna ainda mais sensível envolvendo publicidade governamental, pois os recursos são públicos, oriundos do trabalho do contribuinte. Verbas públicas destinados à comunicação institucional, quando aplicados sem embasamento transparente, podem operar como meio de valorização, compensação ou punição. Esse quadro colabora com a autocensura e pode direcionar o meio como as reportagens são criadas, a escolha de pautas nem sempre retratam o dia a dia da sociedade, podendo ocorrer também à intensidade de críticas e denúncias, com vistas ao aumento de verbas publicitárias.
As informações expostas, não pretendem fazer levar a crer ou afirmar, que a imprensa esteja, como um todo, de forma generalizada, comprometida com a manipulação dos editoriais. A maioria dos meios de comunicação são compostos por profissionais sérios, com compromisso ético com a verdade, agindo com independência. No entanto, a influência política, econômica, filosófica são fatores estruturais que precisam ser debatidos com maturidade nas universidades de jornalismo, associações jornalísticas e especialmente pela sociedade, que precisa de educação, para poder discernir quais matérias interessam para sua formação.
Com o avanço do ambiente digital, as grandes empresas na área, passaram a receber grande parte dos recursos destinados a publicidade online, diminuindo demasiadamente a receita dos meios jornalísticos tradicionais. Tal mudança aumentou aceleradamente a vulnerabilidade financeira/econômica do setor.
Diante do exposto, modelos estão sendo criados, como o de assinaturas, como aquele que conta com o apoio direto do leitor, fortalecendo, de certa forma, a autonomia editorial. Claro fica ao leitor, que a liberdade de imprensa não depende apenas de garantias acadêmicas, profissionais, técnicas e legais, mas basicamente de condições financeiras/econômicas que garantam a realização de um trabalho com total independência. A sociedade precisa debater, refletir sobre quem financia as informações, a veracidade e qualidade do que chega ao leitor, além dos impactos que tal situação pode levar no futuro do país.
Fernando Henrique da Silveira
– Advogado, funcionário público estadual (+ 30 anos), jornalista e radialista.
– PhD em Ciências Jurídicas e Sociais.
– Cidadão Honorário de Biguaçu, foi agraciado com moção de aplausos na Câmara de Vereadores de São José e com a medalha “Dias Velho” pela Câmara de Vereadores de Florianópolis.


