Blog do Prisco
Coluna do dia

Saída de Chiodini expõe fissuras internas e coloca o partido diante de uma encruzilhada histórica

Se há uma característica permanente do MDB de Santa Catarina ao longo das últimas quatro décadas, ela atende pelo nome de divisão interna. O partido sempre foi movido por correntes, lideranças regionais fortes e disputas que, não raro, moldaram os rumos da política estadual.

Basta lembrar os embates das prévias nos anos 1980, quando o pluripartidarismo foi restabelecido. Jaison Barreto derrotando Pedro Ivo Campos em pré-convenção do “Manda Brasa”.

Depois, Pedro Ivo superando Luiz Henrique da Silveira. Mais adiante, outros confrontos entre caciques que se alternaram no comando partidário e na disputa pelo poder estadual. O MDB catarinense nunca foi um bloco monolítico — ao contrário, sempre funcionou como uma federação informal de lideranças.

Nos últimos três anos, porém, o partido vivia uma trégua incomum. A participação no governo Jorginho Mello havia reduzido tensões internas. Havia espaço, cargos, influência e a expectativa — nunca formalizada, mas amplamente difundida — de que o MDB integraria novamente a chapa majoritária em 2026. Essa expectativa ruiu.

A decisão que mudou o ambiente

A escolha do prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), como candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello caiu como um balde de água fria no MDB. O partido se viu fora da majoritária antes mesmo de iniciar a negociação final.

O gesto do governador teve efeito político imediato: obrigou o MDB a sair da zona de conforto e a decidir se permanece no governo sem protagonismo ou se busca reconstruir um caminho próprio.

O desembarque — com freio de mão puxado

A reunião do diretório estadual, realizada na segunda-feira, produziu um gesto simbólico forte: o anúncio de desembarque do governo. Mas, na prática, o movimento está longe de ser uniforme.

Quem deixou o cargo foi o presidente estadual da sigla, Carlos Chiodini, até então secretário da Agricultura. A saída era praticamente inevitável, já que ele lidera o partido e precisava dar um sinal político. O restante, porém, não acompanhou no mesmo ritmo.

Os que ficaram

Secretários e indicados ligados ao MDB não compareceram à reunião decisiva. Jerry Comper (Infraestrutura), Cleiton Fossá (Meio Ambiente) e nomes vinculados à bancada estadual permanecem nas funções. A tendência é que sigam, ao menos, até o prazo de desincompatibilização, no fim de março ou início de abril.

Presença do MDB

Além disso, não houve orientação formal para que comissionados entreguem os cargos. Na prática, a máquina administrativa ainda mantém forte presença emedebista.

O recado implícito é claro: o MDB institucional desembarca, mas suas engrenagens ainda estão dentro do governo.

O risco da debandada

Esse movimento híbrido cria um problema delicado para Carlos Chiodini. Sem unidade interna, o partido fica vulnerável à janela partidária. Deputados e lideranças regionais podem migrar para siglas mais alinhadas ao projeto de reeleição de Jorginho Mello, preservando seus mandatos e reduzindo ainda mais o tamanho político do MDB.

Conduzir esse processo exigirá habilidade cirúrgica da direção estadual.

Conversas paralelas e alianças improváveis

Nos bastidores, as articulações já começaram. Chiodini participou de conversas com João Rodrigues (PSD) e Esperidião Amin (PP). Fala-se também em aproximação com o União Brasil, que integra a federação com o Progressistas.

O problema é histórico: MDB e PP foram adversários centrais em Santa Catarina por décadas. Uma aliança entre ambos pode fazer sentido matemático, mas encontra resistências culturais e regionais profundas.

Nem o PSD parece convicto

A situação se torna ainda mais nebulosa quando se observa o PSD. Parte da cúpula da sigla já chegou a oferecer a cabeça de chapa ao prefeito Adriano Silva, com João Rodrigues migrando para uma candidatura ao Senado.

O gesto revela que nem dentro do próprio partido há consenso sobre a viabilidade do projeto de João Rodrigues ao governo. Se o PSD hesita, por que o MDB apostaria todas as fichas nessa alternativa?

A força gravitacional do favoritismo

Enquanto a oposição tenta se organizar, o governador segue ampliando sua base. A presença de Adriano Silva na chapa não agrega apenas o maior colégio eleitoral do Estado, mas também o simbolismo do empresariado e do discurso liberal.

Porto seguro

Diante disso, cresce entre lideranças emedebistas a avaliação pragmática: mesmo fora da majoritária, pode ser mais seguro permanecer no entorno do poder do que embarcar numa aventura eleitoral incerta.

O MDB diante do espelho

O partido que já governou Santa Catarina e foi protagonista das grandes decisões estaduais agora se vê diante de uma escolha existencial: reconstruir protagonismo por conta própria, correndo riscos, ou aceitar papel secundário numa aliança liderada por quem hoje comanda o jogo.

A saída de Chiodini marcou o início formal de um novo ciclo. Mas o MDB ainda não decidiu, de fato, para onde quer ir.

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