A declaração do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP (Progressistas), funcionou como um sinal amarelo — e dos fortes — no já tensionado tabuleiro eleitoral catarinense. Ao admitir a possibilidade de rompimento com o PL caso o senador Esperidião Amin seja excluído da composição majoritária liderada pelo governador Jorginho Mello, o dirigente não apenas elevou o tom, mas expôs a fragilidade dos acordos costurados até aqui.
Na prática, a fala recoloca no centro do debate uma hipótese que vinha sendo tratada como remota: a federação formada por PP e União Brasil migrando para um entendimento com o PSD do prefeito de Chapecó, João Rodrigues. Se confirmada, essa movimentação redesenharia completamente o campo da centro-direita em Santa Catarina, com efeitos diretos sobre alianças, tempo de televisão e estratégia de campanha.
Pressão
A manifestação de Ciro Nogueira é, antes de tudo, um instrumento de pressão. O PP tenta preservar o espaço de Esperidião Amin na disputa ao Senado e, ao mesmo tempo, mostrar que possui alternativas viáveis fora do eixo governista.
O silêncio de Amin, por ora, é estratégico: evita tensionar ainda mais a relação com o Palácio, mas mantém aberta a porta para um eventual reposicionamento.
Dobradinha
A possibilidade de uma chapa PSD-PP com João Rodrigues ao governo e Amin ao Senado surge como cenário plausível. O próprio prefeito já sinalizou receptividade, o que indica que as conversas de bastidores estão em estágio mais avançado do que se admite publicamente.
Efeito Federação
Como a federação nacional envolve também o União Brasil, a tendência é que o movimento seja acompanhado pelo partido no Estado, sob a liderança de Antônio Rueda e do deputado Fábio Schiocchetti.
Caso se confirme, o bloco levaria consigo um ativo relevante: cerca de um quinto do tempo de televisão — elemento decisivo numa eleição majoritária.
Chapa Pura
No campo governista, a expectativa segue pela consolidação da chapa ao Senado com Carlos Bolsonaro e Carol De Toni, avalizada por lideranças nacionais como Valdemar da Costa Neto e Flávio Bolsonaro.
Confirmado esse desenho, o espaço político para o PP praticamente desaparece — daí o endurecimento do discurso.
Isolamento
Um eventual alinhamento da federação com João Rodrigues cria um efeito colateral imediato: o isolamento do MDB nessa composição. A rivalidade histórica entre MDB e PP, testada e reprovada em experiências passadas, torna improvável qualquer convivência no mesmo palanque em nível estadual.
Memória
O episódio de 2020 em Florianópolis — quando uma aliança circunstancial entre lideranças dos dois campos terminou sem capital político ou eleitoral — permanece como alerta vivo nas cúpulas partidárias. A leitura predominante é que a incompatibilidade estrutural entre as bases inviabiliza projetos conjuntos mais amplos.
Desastre
Naquela eleição, quando Gean Loureiro foi candidato à reeleição, Dário Berger, que havia rompido com seu grupo político anterior na Capital, apoiou Angela Amin. A ex-prefeita tentou fazer o sucessor após dois mandatos.
Mas Francisco de Assis Filho, o Chiquinho, perdeu para o próprio Dário, que se mudou para a Capital após ser duas vezes eleito prefeito de São José.
O resultado do apoio do então emedebista Dário ao PP de Angela? Um desastre: ela ficou em quarto lugar, e a coligação sequer elegeu um vereador.
Cálculo
Diante desse quadro, o PSD tende a optar pela federação em caso de impasse, sobretudo pelo peso no tempo de propaganda e pela capilaridade eleitoral. O MDB, com participação menor nesse quesito, ficaria em desvantagem objetiva na mesa de negociação.
Esse cenário reforça o sentimento das bases. A cúpula do MDB está promovendo encontros regionais — começou pelo Oeste, onde houve quatro agendas, além de uma em Lages.
Cabeça
O sentimento dos emedebistas, até aqui, é pela candidatura própria ao governo. Vale lembrar que, entre a federação PP-União e o MDB, João Rodrigues deve optar pela primeira.
O MDB contribuiria com apenas 8% do tempo de rádio e televisão — fator que pesa decisivamente no cálculo eleitoral.


