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Violência contra a mulher já marca o início de 2026 em Santa Catarina

Santa Catarina começou 2026 sob o peso de um dado que deveria constranger o Estado, o sistema de justiça e toda a sociedade: em apenas sete dias, a violência contra a mulher já se impôs como uma das principais marcas do início do ano. Não se trata de uma sucessão de fatos isolados, mas de um quadro estrutural de negligência, reincidência e falência das políticas de prevenção.

No dia 1º de janeiro, enquanto muitos celebravam a virada do calendário, a realidade foi outra dentro do Judiciário catarinense. Mais da metade das audiências de custódia realizadas no Estado — 51,5% — teve como base a Lei Maria da Penha. Foram 34 prisões por violência doméstica em um único dia. Balneário Camboriú liderar esse ranking logo na abertura do ano não é motivo de surpresa, mas de alerta: a violência doméstica deixou de ser exceção e passou a ocupar lugar central na engrenagem penal.

Os números, por si só, já são graves. Mas tornam-se insuportáveis quando ganham rosto, história e morte. Em São João Batista, Sthepanny Cassiano da Silva, mulher trans, foi assassinada com mais de dez facadas no dia 1º de janeiro. Morreu ao tentar proteger uma mulher e uma criança de uma agressão. Sua morte escancara duas realidades cruéis: o feminicídio como expressão extrema da misoginia e a vulnerabilidade ainda maior das mulheres trans, frequentemente invisibilizadas até mesmo após serem brutalmente assassinadas.

Poucos dias depois, em Chapecó, Marivane Fátima Sampaio, de apenas 25 anos, morreu em decorrência de agressões violentas praticadas pelo ex-companheiro dentro da própria casa. O crime não foi imprevisível. Havia boletins de ocorrência registrados dias antes, ameaças explícitas, troca de fechaduras, medo concreto e pedido de medidas protetivas. A frase registrada — “você não tem ideia da merda que você fez” — não era bravata, era aviso. Ainda assim, a violência avançou até o feminicídio. Quando o Estado falha em agir no momento certo, o resultado é irreversível.

O cenário se completa com o caso ocorrido em Curitibanos, onde uma mulher sobreviveu por pouco a uma tentativa brutal de feminicídio. Espancada com um pedaço de madeira, ameaçada com armas de fogo e com combustível jogado sobre o corpo, só não morreu porque uma mensagem enviada à família acionou a polícia a tempo. Mesmo assim, o histórico de violência era conhecido, as ameaças eram recorrentes e o risco era evidente. O que mudou, neste caso, foi apenas o desfecho — não a lógica da violência.

Esses episódios revelam um padrão conhecido e repetido: a violência cresce, os sinais são claros, as vítimas procuram ajuda, mas a resposta estatal é lenta, fragmentada ou insuficiente. As audiências de custódia se multiplicam, mas chegam sempre depois da agressão. As medidas protetivas existem no papel, mas frequentemente não conseguem impedir o avanço da violência. O sistema age quando o corpo já está ferido — ou quando já não há mais vida.

O aumento das tentativas de feminicídio em Santa Catarina não pode ser tratado como estatística fria nem como fatalidade. Trata-se de um problema político, institucional e cultural. Enquanto ameaças forem relativizadas, enquanto denúncias não forem acompanhadas de proteção efetiva e enquanto a violência doméstica continuar sendo tratada como conflito privado, o Estado seguirá contando mortos — muitas vezes já anunciados.

Os primeiros sete dias de 2026 deixam um recado inequívoco: não falta lei, falta efetividade. Não falta alerta, falta ação. Cada feminicídio ocorrido neste curto intervalo de tempo não representa apenas um crime individual, mas um fracasso coletivo. E seguir naturalizando esses números é, em si, uma forma silenciosa de conivência.

Pri Fernandes
Vereadora Florianópolis

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