Blog do Prisco
Coluna do dia

Entre a dissimulação e o isolamento

Nos bastidores da política catarinense, cresce a percepção de que o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), pode estar falando sozinho quando o assunto é sua pré-candidatura ao Governo do Estado. A cada movimento, o discurso público parece destoar do ambiente interno do partido e até mesmo da realidade administrativa que o cerca. O que deveria ser uma construção sólida soa, cada vez mais, como um projeto solitário — ou, no mínimo, mal combinado.

Crença isolada

Hoje, ao que tudo indica, apenas o próprio João Rodrigues — e, talvez, ele mesmo — acredita de forma efetiva na viabilidade de sua pré-candidatura ao Governo do Estado em 2026. Informações que chegam de Chapecó indicam que nem auxiliares diretos e integrantes do colegiado municipal enxergam um cenário concreto de renúncia ao cargo de prefeito para disputar o Executivo estadual.

Ocupando espaço

A leitura predominante é de que toda essa movimentação tem outro objetivo: ocupar espaço político, manter-se no noticiário e, quem sabe, pavimentar uma tentativa futura de protagonismo majoritário, possivelmente em 2030. Não seria a primeira vez. Em 2022, João Rodrigues já ensaiou um voo mais alto, articulando uma chapa que envolvia o então prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, como vice, e o empresário Luciano Hang para o Senado. A estratégia não prosperou e deixou mais desgaste do que dividendos.

O risco da renúncia

Há um detalhe que pesa — e muito — nessa equação. Uma eventual renúncia em 2026 deixaria João Rodrigues politicamente exposto por pelo menos dois anos. O paralelo com Gean Loureiro, que deixou a Prefeitura de Florianópolis e passou quatro anos no chamado “Sereno” político, é inevitável. A diferença é que Loureiro agora tenta uma vaga na Assembleia. No caso de João Rodrigues, o risco é ainda maior.

Ataque que confunde

Nos últimos dias, o prefeito surpreendeu ao desferir duras críticas ao governador Jorginho Mello, em entrevista a uma emissora de rádio. A estratégia é, no mínimo, difícil de compreender. Se a intenção for permanecer à frente da Prefeitura de Chapecó, romper pontes com o Governo do Estado não parece racional. Recursos estaduais são vitais para qualquer grande município — ainda mais quando, no plano federal, João Rodrigues já não conta com respaldo. A bancada petista, especialmente no Oeste, mantém distância declarada.

O jogo real do PSD

Enquanto João Rodrigues protagoniza movimentos erráticos, Júlio Garcia atua com precisão cirúrgica. O presidente da Alesc trabalha para consolidar sua candidatura à Câmara Federal, e os sinais internos do PSD apontam claramente para uma estratégia focada na chapa proporcional.

Salvaro muda o eixo

Nesse contexto, a decisão de Clésio Salvaro de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa muda completamente o tabuleiro. Salvaro era o único nome com densidade eleitoral para compor uma chapa majoritária com João Rodrigues, seja como vice ou até para o Senado. Agora, sua candidatura estadual tem um objetivo claro: formar dobradinha e impulsionar Júlio Garcia rumo à Câmara Federal.

Prestígio que puxa votos

O capital eleitoral de Salvaro é inegável: quatro vezes prefeito de Criciúma, três mandatos concluídos, duas eleições com mais de 70% dos votos. Trata-se de um clássico puxador de votos, peça-chave para o projeto proporcional do PSD.

Projeto proporcional

Com Ismael dos Santos bem posicionado para a reeleição à Câmara, o PSD trabalha com a perspectiva de eleger dois ou até três deputados federais, além de ampliar a bancada estadual de três para, pelo menos, cinco parlamentares. Tudo isso indica uma estratégia clara: fortalecer o partido no Legislativo, e não apostar fichas altas em uma aventura majoritária.

E a majoritária?

Até se poderia imaginar uma composição com o governador Jorginho Mello, mas com quem? Nomes como o prefeito Topázio Neto, um quadro técnico ligado a Júlio Garcia — como o secretário da Fazenda, Cleverson Siewert — ou até o ex-deputado e atual desembargador João Henrique Blasi surgem como hipóteses muito mais alinhadas ao centro de gravidade do PSD hoje.

Fritura silenciosa

A pergunta que fica nos bastidores é direta: João Rodrigues está sendo “fritado” em fogo baixo, à luz do dia? E mais: ele percebe isso? No PSD catarinense, uma coisa é cristalina — quem dá as cartas é Júlio Garcia. E, diante desse jogo de forças, João Rodrigues parece, a cada semana, perder espaço, força e centralidade.

O roteiro segue em aberto. Mas os sinais, para quem sabe ler política, são cada vez menos sutis.