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Aniversário, palanque e reposicionamento: Merisio volta ao jogo pelo campo da esquerda

O que oficialmente foi uma festa de aniversário, na prática funcionou como um ato político cuidadosamente coreografado. Ao reunir lideranças de diferentes espectros ideológicos em Florianópolis, o ex-deputado Gelson Merisio transformou a comemoração em um marco público de seu retorno ao centro do tabuleiro eleitoral catarinense — agora em um campo bem diferente daquele em que atuou no passado.

O gesto foi interpretado nos bastidores como a largada informal de uma pré-candidatura ao Governo do Estado em 2026, oito anos depois de ter disputado o cargo pelo PSD, à época posicionado no eixo de centro-direita. Desta vez, o movimento é em direção à centro-esquerda, com forte indicativo de filiação ao PSB e alinhamento ao projeto nacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mais do que uma celebração pessoal, o encontro teve roteiro, simbolismo e recados políticos claros.

Da centro-direita ao palanque de Lula

Merisio foi, em 2018, o principal nome do PSD na disputa estadual e construiu trajetória ligada a forças de perfil conservador. O reposicionamento atual é profundo e deliberado.

Nos bastidores, já está consolidado o desenho de uma chapa em que Merisio disputaria o governo, enquanto Décio Lima (PT) buscaria uma vaga ao Senado. O arranjo incluiria palanque em Santa Catarina para a reeleição de Lula, inserindo o ex-presidente da Alesc de vez no campo progressista.

O movimento não surgiu por acaso. Antes dele, foram sondados dois nomes de perfil moderado para encabeçar um projeto de esquerda no Estado: Raimundo Colombo e Paulo Bauer. Ambos declinaram. A avaliação de lideranças nacionais foi de que Merisio, pelo histórico de articulação e pela atuação na campanha de Décio em 2022, seria hoje um nome mais funcional para liderar o campo.

A festa, portanto, serviu para materializar essa transição política — e torná-la pública.

Presenças que falaram alto

O evento teve forte presença de lideranças do PT, além de quadros históricos do MDB e nomes que transitam entre diferentes campos ideológicos. Chamou atenção a participação do deputado federal Carlos Chiodini, presidente estadual do MDB, recém-saído do governo Jorginho Mello. Sua presença teve peso simbólico: ele foi o único parlamentar com mandato de maior expressão a comparecer.

Também estiveram presentes figuras como Paulo Afonso Vieira, Ada de Luca e Eduardo Moreira, representando uma ala histórica do MDB que há tempos se distancia das decisões centrais do partido. A ausência da bancada estadual emedebista, por outro lado, expôs a divisão interna da sigla.

No campo da centro-direita, duas presenças foram lidas mais como observação estratégica do que adesão: João Paulo Kleinübing, ex-prefeito de Blumenau e atual diretor do BRDE, e o prefeito de Blumenau, Egídio Ferrari, ambos politicamente vinculados ao entorno do governador Jorginho Mello (PL). A interpretação dominante é que foram acompanhar o movimento e reportar impressões ao governo.

Colombo e Bauer: gesto, não aliança

A presença de Raimundo Colombo gerou especulações, mas o gesto teve muito mais sabor de recado político do que de composição eleitoral. Filiado ao PSD e com projeto voltado à Câmara dos Deputados, Colombo mantém divergências locais com o grupo de João Rodrigues, pré-candidato ao governo pelo seu partido. Seu comparecimento foi visto como sinalização interna, não como aproximação com a esquerda.

Paulo Bauer, por sua vez, hoje sem partido, apareceu mais como figura de trânsito nacional — ligado ao vice-presidente Geraldo Alckmin — do que como ator central no desenho catarinense.

A esquerda tende a unificar

Mesmo que nem todos os partidos de esquerda tenham tido representação expressiva no evento, a avaliação de bastidor é que, no momento oportuno, haverá alinhamento em torno do projeto liderado por Merisio e Décio. Em eleições presidencializadas como as brasileiras, a orientação nacional costuma prevalecer sobre resistências regionais.

Se Lula for candidato à reeleição, a tendência é de que as direções nacionais atuem para consolidar palanques estaduais coerentes com o projeto federal — e Santa Catarina não deve fugir a essa lógica.

MDB expõe sua encruzilhada

O partido que está mais tensionado neste momento em SC é o MDB. Dividido entre a permanência na órbita do governo Jorginho Mello e a reaproximação com o campo de centro-esquerda, o partido vive um momento de indefinição estratégica.

A presença de Chiodini, somada à participação de lideranças históricas, contrastou com a ausência de parlamentares da ativa e evidenciou que a sigla ainda não decidiu qual caminho seguirá em 2026. O aniversário de Merisio serviu, assim, como um teste de temperatura — e revelou um MDB fragmentado.

Mais que festa, um marco político

Ao transformar um evento social em palco de articulação ampla, Gelson Merisio mostrou que voltou ao jogo com ambição e estratégia. Sua mudança de campo ideológico é significativa, mas, no xadrez eleitoral, coerência histórica nem sempre pesa mais que viabilidade política.

O encontro não oficializou candidaturas, mas cumpriu sua função: sinalizou alianças possíveis, expôs divisões partidárias e colocou, novamente, o nome de Merisio no centro do debate estadual.

A campanha de 2026, em Santa Catarina, começou a ganhar forma em uma festa de aniversário — com bolo, cumprimentos e cálculo eleitoral.

 

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