Blog do Prisco
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Quando o inaceitável vira rotina

Leo Xavier

Há um momento delicado na vida de uma democracia, quando um escândalo deixa de ser um problema e passa a ser um costume. Não é mais o fato em si que choca, mas a forma como ele é absorvido, digerido e rapidamente esquecido. O Brasil parece atravessar exatamente esse trecho da história. Não se trata de ideologia, de partidos, governos ou campos políticos. Trata se de ética pública, de decência institucional e de limites que, uma vez ultrapassados sem reação, passam a redefinir o que é aceitável.

Contratos celebrados entre familiares de autoridades do mais alto escalão do Judiciário e instituições financeiras sob intervenção estatal, honorários advocatícios firmados com personagens que transitaram, sem qualquer período de decantação ética, do topo do Supremo Tribunal Federal para o centro do poder Executivo ou mesmo de decisões processuais que, vistas de fora, parecem mais proteger interesses específicos do que iluminar a verdade com transparência. São fatos públicos, noticiados, documentados. O que espanta não é só a existência deles, mas a naturalidade com que são tratados.

O problema não é apenas um contrato isolado, um nome específico, uma decisão pontual. A questão é o ambiente que se forma quando tudo isso passa a coexistir sem explicações convincentes, sem apuração rigorosa, sem incômodo institucional. É como se o sistema tivesse desenvolvido anticorpos contra a própria vergonha.

Quando autoridades responsáveis por zelar pela Constituição convivem com conflitos éticos evidentes e seguem adiante como se nada estivesse fora do lugar, algo se rompe no pacto republicano. Quando o Congresso Nacional, especialmente suas lideranças, escolhe a inércia, o silêncio se transforma em mensagem. Não fiscalizar também é uma decisão. O poder Executivo, por sua vez, parece caminhar com passos curtos, receoso, calculando cada movimento em função do calendário eleitoral. Governa-se com cautela excessiva, não por virtude, mas por medo. Medo de desagradar, de tocar em feridas que possam sangrar politicamente. E assim o tempo passa, os fatos se acumulam e a sensação de impunidade se instala.

Enquanto isso, a sociedade assiste a tudo isso, cansada e perplexa. Assiste com a sensação incômoda de que a democracia virou um teatro previsível, onde os atores mudam, porém o enredo permanece o mesmo. Espera-se que os representantes reajam e que as instituições funcionem cumprindo o seu dever constitucional. Talvez, espere-se demais de um sistema viciado, auto protecionista e que só pensa nos interesses dos blocos, das categorias que o compõem.

Há algo de profundamente nocivo quando o cidadão comum precisa escolher entre a resignação cínica e a indignação solitária. Democracias raramente morrem de forma abrupta. Na verdade, elas adoecem aos poucos, corroídas pela tolerância ao inaceitável, pela banalização do conflito ético, pela normalização do que deveria causar espanto e indignação. Algo de errado habita as entranhas do poder público brasileiro, em todas as suas esferas — Executivo, Legislativo e Judiciário. Não como acusação leviana, mas como constatação cívico-moral, quando fatos objetivos geram dúvidas legítimas e essas dúvidas não são enfrentadas com transparência, o problema não está em quem questiona, está em quem silencia.

Talvez ainda haja tempo. Tempo para explicações claras, para que o congresso cumpra sua função fiscalizadora, para que o Judiciário lembre-se de que sua força nasce da confiança pública e não da blindagem institucional e para que o executivo governe com coragem e não apenas com cálculo eleitoral.

A democracia não exige unanimidade, exige decência! Não pede heróis, pede responsabilidade. E, sobretudo, não sobrevive sem cidadãos inconformados. Porque quando tudo parece normal demais, é exatamente aí que mora o perigo. A única coisa que os poderes constituídos e o sistema escutam, é a voz das ruas. Talvez esteja aí a chave para mudar essa triste realidade.