O MDB de Santa Catarina entra na fase mais delicada do seu processo de reposicionamento desde o início do atual ciclo político estadual. A consolidação do movimento da União Progressista — reunindo PP e União Brasil — na direção do PSD de João Rodrigues estreita drasticamente o espaço estratégico da sigla.
Na prática, o partido passa a operar sob um dilema clássico: preservar identidade com candidatura própria ou aderir a um arranjo que pode comprometer sua coesão interna. E é justamente nessa bifurcação que emergem as tensões regionais, eleitorais e de liderança.
Dois caminhos
Com a federação inclinada ao palanque pessedista, restam ao MDB duas alternativas claras: lançar candidatura ao governo — desejo majoritário das bases nos primeiros seis encontros regionais (serão 15 no total) — ou construir entendimento com Gelson Merisio pela frente de esquerda.
Trava
A segunda hipótese, porém, é vista como potencialmente disruptiva, uma trava. Sobretudo pelo perfil conservador do eleitorado catarinense e de boa parte da própria militância emedebista atual. Falar em apoiar Lula é quase uma lepra para políticos catarinenses.
Ferida aberta
A possibilidade de apoiar o projeto do governador Jorginho Mello fora da cabeça de chapa segue sendo considerada politicamente indigesta. Nos bastidores, a leitura predominante é de que o MDB foi preterido de forma explícita na montagem do tabuleiro majoritário (ou até mesmo humilhado pelo governador) — fator que alimenta o discurso de candidatura própria mesmo entre dirigentes pragmáticos.
Problema: nomes
O entrave central é a escassez de quadros competitivos. As opções mais citadas orbitam o eixo de Jaraguá do Sul, como o deputado federal Carlos Chiodini, hoje com base eleitoral também em Itajaí, onde disputou a eleição de 2024. E do estadual Antídio Lunelli, ex-prefeito da cidade por dois mandatos.
A concentração geográfica, contudo, expõe a dificuldade de nacionalizar — ou ao menos estadualizar — o discurso partidário.
Fator Joinville
No principal colégio eleitoral catarinense, Joinville, o deputado estadual Fernando Krelling elevou o tom ao afirmar que sua prioridade política é a cidade. O recado é direto: sem protagonismo joinvilense no projeto do MDB, o alinhamento local tende a migrar para a chapa governista, que tem o prefeito Adriano Silva, do Novo, como peça central.
A leitura é pragmática — e expõe a fragilidade territorial da construção emedebista.
Memória eleitoral
Krelling carrega o histórico da disputa municipal de 2020, quando enfrentou Adriano, apoiado pelo então prefeito Udo Döhler(MDB), e ficou fora do segundo turno, vencido na ocasião pelo representante do NOVO, que superou o deputado federal Darci de Matos(PSD), hoje sem mandato e filiado ao Republicanos. O episódio reforça a cautela do deputado em relação a movimentos que não dialoguem diretamente com o eleitorado local. E olha que o avô de Krelling foi um dos fundadores do MDB joinvilense.
Risco de debandada
O cenário se torna ainda mais sensível com a proximidade da janela partidária. O MDB tem hoje seis deputados estaduais e já convive com especulações sobre eventuais saídas — entre elas as de Antídio Lunelli e, em menor grau, do secretário de Infraestrutura Jerry Comper, cujo capital político no Alto Vale do Itajaí convive com o reconhecimento regional das entregas do governo. Além do próprio Fernando Krelling.
Dependendo da decisão estratégica, a legenda pode entrar na eleição não apenas dividida, mas estruturalmente menor.





