Há algo profundamente errado quando uma eleição, que deveria ser um dos momentos mais importantes de aproximação entre quem pede um voto e quem vai concedê-lo, acontece cada vez mais longe das pessoas.
As campanhas mudaram, e a tecnologia trouxe ferramentas extraordinárias para a comunicação política. As redes sociais ampliaram o alcance das mensagens, permitiram que candidatos apresentassem suas ideias para milhares de pessoas e democratizaram o acesso à informação. A tecnologia não é o problema. Ao contrário, pode ser uma importante aliada da democracia.
O problema começa quando a tela deixa de ser uma ponte e passa a ser o próprio lugar da política.
Vivemos uma disputa cada vez mais marcada por vídeos, postagens, anúncios, seguidores e milhares de windbanners, enquanto o contato direto entre eleitor e candidato perde espaço. Quem antes precisava caminhar pelos bairros, ouvir reclamações, conhecer histórias e olhar nos olhos de quem pretendia representar passou, muitas vezes, a ser uma imagem cuidadosamente construída para aparecer na tela de um celular.
E isso produz uma consequência preocupante: o distanciamento entre o candidato e a vida real.
Os problemas que os eleitos deverão enfrentar continuam acontecendo fora das telas. A fila do posto de saúde, a escola que precisa de atenção, a estrada em más condições, a segurança, o meio ambiente, a proteção aos animais, o transporte, o desemprego, a falta de renda e tantas outras questões sociais fazem parte da vida concreta das pessoas.
Esses problemas podem aparecer nas redes sociais. Podem ser denunciados, registrados e discutidos. A tela pode mostrar um reflexo da realidade, mas ela não é a realidade. A vida continua acontecendo do lado de fora.
Por isso, não se trata de escolher entre política presencial e digital. As duas podem e devem coexistir. A tecnologia pode ampliar uma mensagem, apresentar uma proposta e mostrar um problema. Mas não substitui uma conversa, uma cobrança, o conhecimento de quem vive determinada realidade ou o olho no olho.
Nada substitui o compromisso assumido frente a frente com o eleitor.
Talvez esteja aí uma das maiores contradições das eleições atuais. Ao mesmo tempo em que nunca tivemos tantos instrumentos para nos comunicar, a relação entre representante e representado se torna cada vez mais distante.
E esse distanciamento, em muitos casos, não acontece por acaso. Pode ser construído estrategicamente.
Quando o contato direto diminui e a comunicação passa a ser cuidadosamente planejada para as telas, o candidato deixa de ser conhecido pela convivência e passa a ser apresentado por uma narrativa. Escolhem-se imagens, palavras, cenários, ângulos, discursos e até momentos em que determinada emoção deverá aparecer. O resultado pode ser a criação de personagens.
Verdadeiros atores políticos ocupam o espaço virtual, interpretando versões de si mesmos capazes de influenciar uma parcela significativa da sociedade, cada vez mais presa ao ambiente digital. O eleitor conhece o rosto, o sorriso, o slogan e os vídeos, mas pode não conhecer sua história, seu passado, suas posições, suas prioridades, suas contradições ou sua relação concreta com a comunidade.
É possível, portanto, estar presente todos os dias na tela de alguém e continuar ausente da vida dessa mesma pessoa. Essa diferença entre ser visto e ser conhecido é fundamental.
Estruturas profissionais de comunicação e recursos financeiros ampliam enormemente o alcance de uma candidatura. Podem comprar espaço, frequência e visibilidade. Mas não deveriam substituir aquilo que somente a convivência constrói: confiança. Confiança exige tempo, presença e coerência.
As redes sociais são importantes e vieram para ficar. Devem ser utilizadas para informar, prestar contas, apresentar propostas, ampliar o debate e aproximar pessoas. O que não podemos permitir é que a política fique confinada a elas.
Os candidatos não serão eleitos para governar a internet. Serão eleitos para tomar decisões sobre a vida real.
Saúde, educação, segurança, infraestrutura, emprego, agricultura, mobilidade, proteção social e tantos outros temas não existem apenas como conteúdos. Existem na vida de pessoas concretas. Uma postagem pode mostrar o problema, um vídeo pode denunciá-lo e uma fotografia pode revelar uma realidade. Mas é preciso estar lá para compreendê-la verdadeiramente.
Uma eleição deveria ser justamente o momento de recuperar essa aproximação.
O eleitor deveria poder olhar para quem pede seu voto e perguntar: o que você pensa? O que pretende fazer? Por que defende essa posição? Qual compromisso está disposto a assumir? E, principalmente, o que conhece da realidade que pretende ajudar a transformar?
Quando esse contato desaparece, a política também se desumaniza. O candidato vira personagem, a campanha vira produto, o eleitor vira audiência e o voto corre o risco de se transformar apenas na consequência de uma disputa pela atenção.
Por isso, a pergunta mais importante não deveria ser quantos seguidores uma candidatura acumulou, quantas vezes apareceu na tela ou quantos vídeos produziu.
Deveria ser outra: quantas pessoas tiveram a oportunidade de realmente conhecer esse candidato ou essa candidata?
Quantas puderam conversar? Fazer uma pergunta difícil? Ouvir uma resposta olhando nos olhos? Conhecer sua história, suas ideias e seus compromissos?
A tecnologia pode aproximar, ampliar vozes e tornar a comunicação mais democrática. Mas não pode substituir aquilo que está na essência da política: pessoas encontrando pessoas. Porque os problemas reais estão fora da tela.
A tela pode mostrar seus reflexos, ajudar a denunciá-los e contribuir para encontrar soluções. Mas a realidade continua esperando do lado de fora.
E nada, absolutamente nada, substitui o olho no olho, a conversa sincera e o compromisso assumido diante daquele que, no dia da eleição, terá o poder de decidir se entrega ou não o seu voto.
Uma democracia não se fortalece quando o eleitor apenas reconhece o rosto de um candidato. Ela se fortalece quando conhece a pessoa, suas ideias, sua trajetória e seus compromissos e, depois de tudo isso, decide livremente.
Caso contrário, podemos manter todos os rituais de uma eleição, com urnas, campanhas, propagandas, vídeos e candidatos, mas perder justamente aquilo que deveria estar no centro de tudo: o encontro entre a sociedade e aqueles que desejam representá-la.
Florianópolis, setembro de 2026.
Vinícius Ouriques Ribeiro
Advogado







