Ana Campagnolo saiu das urnas com mais do que um novo recorde. Os 387.523 votos consolidaram uma liderança com força própria, capaz de enfrentar divergências dentro do bolsonarismo e, ainda assim, praticamente dobrar sua votação. Em 2022, foram 196.571 votos. Agora, quase 191 mil a mais.
O ponto central é político. Ana contestou a vinda de Carlos Bolsonaro para Santa Catarina, enfrentou cobranças públicas e não foi eleitoralmente atropelada. Pelo contrário. A leitura que emerge desse resultado é que sua independência encontrou respaldo também entre eleitores que rejeitavam a imposição do nome do filho do ex-presidente. Continuou conservadora, mas demonstrou que sua relação com o eleitor não depende de concordar com tudo o que vem da família Bolsonaro.
É nesse sentido que seu desempenho merece atenção especial entre as três mulheres do PL que protagonizaram a eleição catarinense. Carol de Toni conquistou quase 2,7 milhões de votos para o Senado, superando Carlos por mais de 600 mil. Júlia Zanatta chegou a aproximadamente 560 mil votos para a Câmara. Ana, numa disputa estadual mais pulverizada, alcançou quase 390 mil.
Não se trata de estabelecer uma equivalência matemática entre eleições diferentes. O diferencial de Ana está na combinação de votação, autonomia e influência sobre a bancada. Seu crescimento contribuiu para o PL conquistar 16 das 40 cadeiras da Assembleia. Ela entregou ao partido um resultado que não pode ser tratado como detalhe na distribuição dos espaços de poder.
A presidência da Assembleia
Primeira-secretária da Alesc, Ana reúne experiência na Mesa e respaldo eleitoral para reivindicar a presidência. É um nome natural para o posto. Eventuais resistências internas terão de enfrentar uma pergunta incômoda: que argumento político justifica deixar em segundo plano a parlamentar que mais votos trouxe à bancada?
A escolha depende de articulação e dos votos dos deputados. Mas Jorginho Mello tem razões de sobra para reconhecer o tamanho do resultado de Ana e ajudá-la a transformar essa força eleitoral em protagonismo institucional.
O horizonte também vai além de 2027. Enquanto Adriano Silva poderá chegar a 2030 na condição de governador, caso Jorginho deixe o cargo para concorrer ao Senado, Ana, por sua vez, amplia as possibilidades de participar das próximas composições majoritárias.
Há aí um recado para a própria direita, inclusive para Júlia Zanatta: votação expressiva abre portas, mas a construção de uma liderança duradoura exige mais do que presença nas redes e enfrentamento permanente. Num eventual cenário de reorganização da direita, com Tarcísio de Freitas ganhando centralidade, autonomia e capacidade de diálogo poderão valer ainda mais.
Ana mostrou que é possível divergir sem perder identidade — e crescer sem pedir licença.







