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A virada que veio das ruas e das redes

Artigo de Guilherme Pontes, marqueteiro, consultor político e eleitoral
Artigo de Guilherme Pontes, marqueteiro, consultor político e eleitoral

Lula entrou no segundo turno 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro e terminou cerca de 4,3 milhões à frente. Nenhum candidato a presidente tinha virado uma eleição assim desde 1989. O que mudou em 21 dias passa por duas frentes que funcionaram juntas: as ruas e as redes.

Um dia depois do primeiro turno, o deputado André Janones criou o canal “Exército do Lula”. Em menos de uma semana ele saiu de 50 mil para quase 1 milhão de seguidores e, na reta final, passou de 10 milhões. Todo dia saía uma missão: postar um vídeo, subir uma hashtag, mandar no grupo da família, panfletar no bairro. Não precisa de robô para isso funcionar. Funciona com gente de verdade, e funcionaria para qualquer lado.

O segredo está no que a missão pede das pessoas. Cada pessoa não está só espalhando conteúdo, está dizendo em público em quem vota. Nos anos 1970, a pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann chamou de espiral do silêncio o mecanismo por trás disso: a gente mede o clima o tempo todo, fica quieto quando se sente em minoria e fala quando se sente em maioria. Mil pessoas postando a mesma coisa na mesma hora fazem o feed parecer maioria. Os assuntos sugeridos por Janones subir nos trending topics, gera confiança coletiva, e quem estava calado se sente seguro para postar, e cada post novo deixa o próximo mais à vontade. A outra peça é mostrar que funcionou. Quando a hashtag subia, o resultado voltava para o canal: olha o que a gente fez. A psicologia chama isso de eficácia coletiva. Quem vê o próprio esforço dar resultado volta no dia seguinte e traz mais gente. 

Ao mesmo tempo, a rua encheu. Os atos em Florianópolis, Copacabana e na Avenida Paulista surpreenderam a própria campanha, e movimentos sociais e estudantes organizaram mobilizações em dezenas de cidades. As fotos das avenidas lotadas voltavam para o mesmo WhatsApp que tinha convocado as pessoas, e uma coisa alimentava a outra. Enquanto isso, a militância batia de porta em porta atrás de quem pensava em ficar em casa ou votar nulo e branco.

O resultado aparece no comparecimento. Foram 3,2 milhões de eleitores a mais nas urnas do que no primeiro turno, e a abstenção caiu de 21,08% para 19,22%. Em eleição apertada, é essa margem pode ter decidido.

O dado mais curioso veio dos bastidores: o próprio time de Lula admite que os principais motores da virada estavam fora da campanha. Para quem trabalha com marketing político, fica a lição. Ninguém quer aparecer do lado que está perdendo, então missão que faz o apoiador se expor vale mais que grupos cheios de conteúdos. 

A virada nesta eleição, que surpreendeu a todos, foi feita por milhões de pessoas que, uma de cada vez, perdeu o medo de dizer em quem iam votar. Cada post, cada panfleto e cada conversa no portão deixou o próximo mais fácil.