É impressionante a semelhança entre os resultados presidenciais do segundo turno em Santa Catarina.
Flávio Bolsonaro conquistou 69,42%, contra 30,58% de Lula. Em 2022, Jair Bolsonaro fez 69,27%, enquanto o petista recebeu 30,73%.
A diferença é de apenas 0,15 ponto percentual. Apenas mudou o nome na urna: saiu o pai e entrou o filho. A posição predominante do eleitorado catarinense permaneceu praticamente intacta.
*Identidade conservadora*
Não foi um entusiasmo passageiro nem uma onda que desapareceu depois de quatro anos. Nada verdade, tudo começou já em 2018. Santa Catarina reafirmou seu perfil conservador e sua resistência ao projeto petista.
Lula venceu nacionalmente, mas voltou a encontrar uma barreira robusta no estado.
O resultado precisa ser compreendido por Brasília. O catarinense tem o direito de escolher seu campo político sem receber tratamento de adversário administrativo.
*Jorginho entregou*
Jorginho Mello cumpriu sua parte. Reelegeu-se no primeiro turno e trabalhou por uma votação expressiva de Flávio nas duas etapas da disputa.
Também se empenhou pela eleição de Carlos Bolsonaro ao Senado e de Jair Renan à Câmara Federal.
Entregou apoio, estrutura e resultado. A derrota nacional não apaga o desempenho catarinense nem autoriza colocar na conta do governador o que ocorreu fora de suas fronteiras.
*Fidelidade antiga*
Essa ligação não começou agora. Em 2022, Jorginho acolheu a candidatura de Jorge Seif ao Senado, alinhando sua chapa à preferência de Jair Bolsonaro.
Quatro anos depois, voltou a investir nessa associação. O PL conquistou as duas vagas em disputa e terá os três senadores catarinenses.
Lembrando ainda que elegeu sete deputados federais e 16 estaduais.
É uma demonstração de força político-partidária. Jorginho sai fortalecido no estado, embora tenha perdido a perspectiva de contar com um aliado no Planalto.
*Convivência difícil*
Jorginho e Lula mantiveram uma relação politicamente distante, marcada por críticas e provocações. Os encontros institucionais coletivos não produziram uma interlocução próxima.
O segundo mandato de ambos começa sob o peso de uma campanha radicalizada. Nada indica uma aproximação espontânea.
Mas governador e presidente não precisam gostar um do outro. Precisam cumprir suas obrigações. A população não pode pagar pela incompatibilidade entre os dois.
*Diálogo sem submissão*
Jorginho será cobrado a buscar diálogo com o governo federal. Deve fazê-lo com firmeza, sem renunciar às posições que o elegeram.
Relacionamento institucional não exige conversão ao petismo. Tampouco significa baixar a cabeça diante de Lula.
O governador representa Santa Catarina. Tem de apresentar demandas, cobrar recursos e exigir tratamento compatível com a importância econômica do estado. Interlocução não pode ser confundida com submissão.
*Recurso não é favor*
Rodovias, acessos portuários, infraestrutura e gargalos logísticos precisam de decisões federais. São necessidades concretas de uma economia que trabalha, produz e recolhe impostos.
Dinheiro público não sai do bolso do presidente. Obra federal não é presente para estado politicamente obediente.
Lula também tem a obrigação de construir essa convivência. Governar para todos inclui respeitar quem lhe impôs uma derrota esmagadora nas urnas catarinenses.
*Décio no horizonte*
A continuidade de Décio Lima à frente do Sebrae Nacional é uma possibilidade política. Sua proximidade com Lula mantém o petista no circuito de influência federal.
Isso, porém, não lhe devolve automaticamente a força eleitoral. Cargo e interlocução não substituem votos.
A esquerda catarinense precisa compreender por que conserva acesso ao poder em Brasília, mas encontra tanta dificuldade para ampliar sua presença nas urnas estaduais.
*Merísio ficou abaixo*
Gelson Merísio terminou com 15,66%, abaixo dos cerca de 17,4% de Décio no primeiro turno de 2022. Também ficou distante dos 25,04% obtidos por Lula na primeira rodada deste ano.
A promessa de atrair o centro não se materializou. Nem o eleitorado presidencial petista foi integralmente transferido para a candidatura ao governo.
Merísio passou João Rodrigues, mas não incomodou Jorginho. A segunda posição não transforma um resultado eleitoral modesto em demonstração de força.
*Brasília e as conexões*
Um eventual aproveitamento de Merísio no governo federal dependerá de articulação política e do peso de suas relações empresariais, inclusive com o grupo JBS, cuja empresa de terminais opera em Itajaí.
Mas nenhuma composição substitui a obrigação central dos governos: atender Santa Catarina.
O estado manteve sua posição nas urnas. Jorginho precisa cobrar. Lula precisa governar também para os catarinenses.
Divergência política não pode virar castigo administrativo. Santa Catarina não tem de pedir desculpas por ser conservadora.






