Lula da Silva prepara um pronunciamento à nação para falar em responsabilidade fiscal, sustentabilidade das contas públicas e organização da economia.
Depois da campanha de promessas, chegou a hora de explicar como pagar a fatura. O presidente reeleito descobre a urgência de um assunto que não poderia ter sido empurrado para depois das urnas.
A realidade econômica não respeita calendário eleitoral.
Discurso sem medida
As informações sobre o pronunciamento apontam uma sinalização de compromisso fiscal, sem detalhamento das providências.
É pouco. Muito pouco para quem precisa recuperar confiança depois de ampliar compromissos e alimentar expectativas durante a campanha.
Como conter despesas? Quais prioridades serão preservadas? De onde virão os recursos? O brasileiro precisa de respostas. Pronunciamento não fecha orçamento.
O mercado cobra
A pressão sobre o real, as ações e os juros de mercado expõe a desconfiança em relação ao próximo mandato.
Não adianta tratar toda cobrança como conspiração de especulador. Investimento exige previsibilidade. Quem aplica recursos quer saber quais serão as regras e se o governo tem condições de sustentar suas decisões.
A incerteza tem preço. E esse preço não fica restrito à Bolsa.
A conta chega em casa
Crédito caro, prestações pesadas e dificuldade para manter as despesas atingem o trabalhador, o pequeno empresário e a classe média.
O cidadão não acompanha necessariamente os detalhes da dívida pública. Mas percebe quando o salário termina antes do mês e quando o financiamento deixa de caber no bolso.
É aí que o discurso triunfalista encontra uma barreira incontornável: a vida real.
O freio do Copom
O Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo a sequência de cinco cortes.
O quadro combina incerteza, expectativas de inflação pressionadas e desaceleração da atividade. Uma equação delicadíssima.
O governo precisa compreender que não haverá alívio consistente no crédito enquanto persistirem dúvidas sobre a condução econômica. Cobrar juros menores sem enfrentar o problema fiscal é tentar resolver a consequência deixando a causa de pé.
Não existe mágica
A economia não se organiza por voluntarismo. Canetada não fabrica confiança, não elimina risco e não faz desaparecer a inflação.
Juro precisa cair de maneira sustentável. Para isso, o governo tem de apresentar uma política capaz de convencer pelo resultado, e não pela insistência do presidente.
Fórmula milagrosa costuma produzir uma conta bastante concreta. E sobra justamente para quem dispõe de menos recursos.
O pacote e a fatura
Durante a campanha, houve acenos sobre dívidas, benefícios e transporte coletivo. Agora, o eleitor tem o direito de exigir o destino de cada compromisso.
O que será executado? Em qual prazo? Com qual fonte de financiamento?
Prometer mundos e fundos para conquistar o voto e depois descobrir as limitações do orçamento é uma afronta à confiança do cidadão. A cobrança por coerência será inevitável.
O Congresso na conta
Deputados e senadores também terão responsabilidades. Quem apoiou medidas e promessas precisa participar da discussão sobre seus custos.
Não será aceitável celebrar benefícios no palanque e desaparecer quando chegar o momento de explicar o financiamento.
O Congresso terá de escolher entre enfrentar o problema ou continuar adiando decisões até que o ajuste fique mais doloroso. A omissão também produz consequências.
Empresa não vive de aceno
O setor produtivo precisa de segurança para investir, contratar e planejar. Instabilidade, crédito caro e dúvidas sobre impostos e despesas públicas trabalham na direção contrária.
O risco de desaceleração exige seriedade. Não se enfrenta uma situação dessas com propaganda, reunião sem encaminhamento e promessa de anúncio futuro.
A economia exige decisões. O trabalhador também.
A festa acabou
Lula venceu a eleição. Isso não significa que tenha vencido os problemas econômicos nem recebido autorização para ignorá-los.
Se pretende falar em responsabilidade fiscal, terá de demonstrá-la nas escolhas do governo. Cortar desperdícios, estabelecer prioridades e explicar os compromissos assumidos.
A criatividade que sobrou para prometer precisa aparecer para administrar.
A campanha terminou. A conta ficou. E nenhuma cadeia de rádio e televisão será capaz de fazê-la desaparecer.






