Esta é a draga que estava prevista para chegar hoje.
A novela da dragagem de grande porte no Complexo Portuário de Itajaí ganhou mais um capítulo de incertezas. A empresa Van Oord comunicou oficialmente à Superintendência do Porto de Itajaí (SPI) o adiamento por tempo indeterminado da chegada da draga de sucção HAM 316, que deveria atracar no complexo portuário neste sábado (7).
A justificativa oficial da empresa apoia-se em fatores hidrológicos: as fortes chuvas elevaram a vazão e a correnteza do Rio Itajaí-Açu para 2,9 nós (cerca de 5,4 km/h), fechando a barra por 40 horas e criando um cenário “tecnicamente desfavorável” para o equipamento de sucção. Sem prever uma nova data, a Van Oord limitou-se a informar que a vinda só ocorrerá quando houver “condições favoráveis”.
O recuo, no entanto, levanta questionamentos incômodos na comunidade portuária. Soa contraditório que a concessionária e a autoridade portuária justifiquem o atraso com base em medições ambientais e hidrológicas rigorosas no exato momento em que o sistema de monitoramento ambiental do Porto de Itajaí está inoperante.
O paradoxo do monitoramento “no visual”
A alegação de que as condições do rio impedem a operação técnica esbarra em uma realidade incômoda: o Porto de Itajaí passou mais de um ano com seu sistema de monitoramento do canal completamente paralisado, forçando a praticagem a operar manobras complexas de navios cargueiros no “visual”.
Recentemente, a SPI anunciou com entusiasmo a instalação emergencial de novos equipamentos de telemetria meteoceanográfica — incluindo marégrafos de radar e uma estação meteorológica ao longo de 9,3 quilômetros do canal. O que não foi amplamente divulgado, contudo, é que esses aparelhos ainda não funcionam efetivamente. A própria administração portuária admite que o sistema está em fase lenta de “conferência e calibração de dados”, sem fornecer leituras consolidadas e confiáveis em tempo real para o mercado.
Justificativa técnica ou desculpa logística?
Com os berços dos terminais registrando perdas severas de profundidade e restrições de calado que afetam diretamente gigantes como a Portonave e a JBS Terminais, a falta de dados ambientais públicos e auditáveis transforma as justificativas da Van Oord e da Superintendência do Porto de Itajaí em uma verdadeira caixa-preta.
Se o sistema que deveria medir correntes, marés e sedimentação de forma automatizada 24 horas por dia não está operando com eficácia, como o porto consegue balizar com tanta precisão milimétrica que a draga de grande porte não pode atuar?
Enquanto a draga de menor porte Njord segue realizando a manutenção paliativa por injeção de água (WID), o porto vê suas linhas de contêineres e navios cancelarem escalas por falta de profundidade estável. A falta de uma data definitiva para o navio de sucção, mascarada por um “alerta ambiental” emitido justamente por quem não tem o sistema ambiental operando, deixa o setor logístico de Santa Catarina navegando em águas turvas e sem previsão de melhora.






