Bastaram poucas horas depois do resultado presidencial para perceber que a conflagração política continuará. A campanha acabou. O enfrentamento institucional, não.
Lula venceu, mas o país permanece dividido. Quem esperava uma rápida distensão recebeu, logo na segunda-feira, a demonstração de que o próximo capítulo será tão áspero quanto o anterior.
Passaporte recolhido
Por determinação de Alexandre de Moraes, Flávio Bolsonaro foi intimado a entregar seus passaportes e ficou proibido de deixar o Brasil. A medida ocorre no contexto de uma investigação.
Investigação não é condenação. Tampouco a retenção de documentos permite anunciar uma prisão como destino consumado.
Mas a adoção da medida imediatamente após a derrota presidencial amplia a tensão. Uma decisão dessa gravidade exige fundamentação concreta, proporcionalidade e transparência.
Eduardo atrapalhou
A declaração de Eduardo Bolsonaro sugerindo que o irmão fosse para os Estados Unidos ofereceu combustível à controvérsia. Flávio afirmou que nunca pretendeu deixar o país.
Mais uma vez, uma manifestação familiar acrescentou um problema ao candidato. Falar sem medir as consequências pode render aplausos digitais e produzir prejuízo político.
A família precisa compreender que comunicação não é competição para ver quem provoca mais. Há consequências fora da tela.
Rigor para todos
Moraes também precisa responder aos questionamentos sobre sua atuação e às cobranças de imparcialidade. A autoridade da toga não dispensa explicações. Exige ainda mais.
A Justiça precisa investigar quando existem fundamentos. Mas o rigor deve alcançar todos, sem privilégios, proteção corporativa ou seletividade.
Uma República não se fortalece quando parte da população enxerga nas decisões judiciais a continuação da disputa eleitoral.
A caneta de Lula
Os conservadores terão bancadas expressivas no Congresso. Isso não significa, automaticamente, controle da pauta ou capacidade de impor suas prioridades.
Lula continuará com a caneta, os ministérios e a força de negociação do Executivo. Parlamentares de convicções firmes podem resistir. Outros encontrarão justificativas convenientes para a aproximação.
Na política brasileira, muita coragem de palanque termina acomodada numa reunião de gabinete.
O comando das Casas
Lula recebeu Davi Alcolumbre e Hugo Motta na segunda-feira. Os dois pretendem continuar no comando do Senado e da Câmara.
A aproximação interessa ao governo. Presidentes aliados ajudam a organizar maiorias, administrar conflitos e controlar o andamento das propostas.
A direita pode ter votos e, ainda assim, encontrar a porta fechada. Bancada numerosa sem comando, articulação e disciplina não resolve tudo.
A barreira Alcolumbre
Alcolumbre afirma ter ao menos 48 votos para sua recondução e mantém resistência ao impeachment de Moraes.
O recado é cristalino: eleger senadores conservadores não basta para transformar uma promessa de campanha em processo.
A presidência do Senado tem papel decisivo no encaminhamento dessas denúncias. Quem vendeu uma solução automática terá de explicar ao eleitor a distância entre o discurso e a realidade.
A conta continua
Enquanto Brasília se reorganiza, as contas públicas permanecem no centro do problema. Como acomodar os benefícios aprovados, as novas promessas e as despesas já contratadas?
Lula precisará demonstrar de onde sairá o dinheiro. O contribuinte não pode ser convocado eternamente a financiar a criatividade eleitoral do governo.
A urna assegurou outro mandato. Não revogou a aritmética. Gastança e improvisação continuarão sujeitos à cobrança.
O peso do sobrenome
Flávio teve momentos de boa desenvoltura, mas não conseguiu separar sua candidatura do desgaste acumulado pelo pai.
A referência constante ao governo Bolsonaro mobilizou apoiadores e também reativou rejeições, inclusive sobre a pandemia. O sobrenome que abriu as portas da candidatura trouxe uma conta política pesada.
A derrota precisa ser examinada nesse conjunto: estratégia, mobilização, rejeição, máquina governamental e capacidade petista de buscar votos.
A oposição de 2030
Flávio tentará ocupar posição de destaque na oposição. Sem mandato a partir de 2027, porém, terá de disputar espaço com lideranças que continuarão administrando governos e construindo resultados.
É aí que Tarcísio de Freitas ganha relevo. À frente de São Paulo, terá estrutura, visibilidade e condições de se projetar para 2030.
A eleição terminou. A oposição precisa reconhecer o resultado, fiscalizar o governo e preparar alternativas.
Quem ficar apenas procurando culpados corre o risco de perder também os próximos quatro anos.


