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A epidemia como uma peça teatral

Celso Ferreira Ramos Filho
Professor, Infectologista, Membro Titular da Academia Nacional de Medicina.

Em seu livro Explaining Epidemics (Explicando Epidemias, 1992), o sociólogo e historiador americano Charles E. Rosenberg compara as epidemias a peças teatrais, desenroladas em quatro atos. O primeiro é o da revelação progressiva, à medida que o reconhecimento da existência do surto implica em ameaça a interesses específicos, não apenas individuais, mas de natureza econômica, institucional e política, reconhecimento esse que só se faz inteiramente quando não é mais possível negar as evidências da epidemia. Agentes econômicos temem os efeitos sobre seus negócios, administradores públicos receiam as suas consequências econômicas e sociais, e (Rosenberg não o disse: digo-o eu) políticos sentem insegurança quanto às suas possibilidades de permanência ou de recondução a seus cargos.

Apenas quando não há mais jeito é que se admite publicamente a existência da epidemia: “corpos devem se acumular, e doentes devem sofrer em números crescentes, antes que as autoridades reconheçam o que não pode mais ser ignorado. […] Desde o Século XIV, a quarentena tem sido uma opção administrativa obrigatória, mas politicamente temida (…) se estivéssemos realmente escrevendo uma peça, este reconhecimento seria o fim do primeiro ato”.

Pois, no Brasil de hoje, parece que ainda não chegamos a este reconhecimento. No segundo mês de algo que durará não menos do que quatro ou cinco, com níveis ascendentes de casos e números crescentes de óbitos, com relatos pungentes de hospitais cheios, e com as tétricas imagens de covas abertas às pressas e cadáveres acumulados em frigoríficos, ainda temos pessoas e agentes públicos refutando a importância da pandemia, negando a gravidade da covid-19, e pedindo e tentando impor a suspensão do distanciamento social, este sendo a única solução disponível, na ausência de uma vacina. São os políticos, esses a quem culpamos por tudo (o que nos auto isenta de erros pessoais), são os empresários, esses autoproclamados protetores de empregos, são os economistas, esses oráculos délficos que nunca erram (exceto quando, depois de constatado o erro, se verifica que não acertaram). Mas são também os médicos; estes, culpados de imperdoável ignorância dos fundamentos primários, básicos e históricos de sua própria profissão, ao se tornarem porta vozes da ignorância, arautos da desinformação, profetas da salvação improvável, e algozes antiéticos de quem deles discorde.

O segundo ato implica na busca de um mecanismo que permita à população lidar com a aleatoriedade da infecção: com o fato de que, hoje em plena saúde, amanhã o indivíduo poderá estar doente e, pouco depois, ainda, poderá estar morto. Este senso coletivo sobre uma estrutura explanatória parece ser necessário à aceitação social de qualquer epidemia. Antigamente, buscava-se uma razão transcendental para a ocorrência (aliás, não tão antigamente assim: a Aids era – ainda é – tida como um castigo ao pecado contra a castidade). A quebra de um tabu, uma infringência coletiva ou generalizada de um mandamento divino, o surgimento de um cometa, uma conjunção astrológica desfavorável (agente da gripe suína de 2009, o ainda persistente H1N1 ganhou um mapa astrológico, quando de seu aparecimento), o desrespeito a um objeto sacro, a perversidade atribuída aos praticantes de uma dada religião (na Idade Média, os judeus foram recorrentemente inculpados de originarem epidemias), são muitos os exemplos. Em tempos modernos – hoje – busca-se uma origem estrangeira, responsabiliza-se os cidadãos de outros países, fecha-se inutilmente fronteiras; que, aliás, são sempre pérvias ao estigma e à discriminação, acompanhantes dissimulados daqueles atos.

Em outros tempos, recorria-se a preces, a ritos, a bençãos e a procissões, para expiar os pecados coletivos e abreviar a “visitação”, termo da época para epidemia. Hoje, vemos ainda eventos sacros que prometem o fim do surto e apregoam o término do morticínio, e ouvimos falas religiosas que relativizam a situação, ainda num esforço de escamotear ou, ao menos, de minimizar o problema, inapelavelmente visível, no entanto.

No terreno laico (mas ideológico), surgem invectivas contra uma pretensa ideologia do vírus, são construídas teorias fantásticas sobre conspirações internacionais, e é feita a propositura de uma origem artificial e proposital da doença e de seu agente biológico. Ou, sempre buscando uma redução de danos políticos, um passaporte diplomático que permita isenção das consequências de erros de conduta eventualmente cometidos no controle da epidemia, afirma-se a existência de um remédio miraculoso, a aparição de um deus ex machina para a solução de uma tragédia transformada em farsa.

Porque é necessário buscar assegurar-se de que não se está exposto àquilo que se vê tão claramente em torno, mesmo quando se força o desvio do olhar para outro lado. Dentro da insegurança e incerteza permanentes sobre o dia seguinte, surgem, reais ou imaginárias, as razões individuais que explicam a suscetibilidade, ou, contrariamente, asseguram a própria isenção do risco temido. Fatores como o abuso de álcool (ou, em sentido inverso, o seu uso moderado), o abuso ou a idiossincrasia alimentar (ou a não adoção de normas de nutrição, também apresentadas de modo salvacionista), o excesso de trabalho, a promiscuidade sexual, a falta de higiene pessoal e outros fatores comportamentais e voluntários eram e são tidos como causas próximas ou favorecedoras de doenças epidêmicas. A busca por tais fatores predisponentes, e a necessidade natural de procura de proteção e defesa em relação à doença leva à sua atribuição exclusiva e excludente a um grupo populacional a que não se pertença: a gripe “chinesa”, atacando “apenas” os idosos e as pessoas com comorbidades. Além de pervasivos, discriminação e estigma são intemporais e ubiquitários.

O terceiro ato da peça tem como tema a negociação de uma resposta coletiva e comunitária, mas não necessariamente oficial. Isto em geral decorre de uma pressão pública para que algo seja feito – Rosenberg aponta que, dada a urgência inerente a uma epidemia, não tomar uma providência constitui, de fato, assumir uma atitude: a inação ou a ação tardia têm consequências inafastáveis. Isto implica não apenas na adoção de medidas coletivas – vacinação, distanciamento social, fechamento de escolas, comércio e indústrias, proibição de reuniões e restrições de circulação de pessoas – mas, também, na adoção em comum de ritos bem fundamentados: lavar as mãos, não tocar a face, usar máscaras, evitar aglomerações, higienizar superfícies. Ou sem fundamento: estocar papel higiênico, usar máscara abaixo do nariz, no queixo (ou no pescoço…), fazer manobras para avaliar capacidade ventilatória, ou gargarejar com água morna, entre outros ritos que não merecem menção ou atenção.

O quarto ato é o mais longo da peça, e tem duas cenas distintas: a subsidência do surto, e a retrospecção do ocorrido. Epidemias não acabam de repente; são exponencialmente rápidas, ao surgir, mas demoram-se interminavelmente, mesmo quando duram apenas alguns meses. Neste intervalo, as pessoas fogem (quando podem), ou se abrigam (como podem). Adoecem, morrem, sobrevivem e sofrem, e a incidência de casos, internações e óbitos demora a decrescer, com flutuações que dificultam por vezes a avaliação do estágio evolutivo do processo epidemiológico.

Admitido o fim da epidemia, é necessário olhar-se para trás: a volta ao normal ocorreu, e o ritmo da vida tornou a ser como antes? As expectativas de mudanças, melhoras e correções das desigualdades e injustiças sociais postas em relevo pela brutalidade do assédio da doença, esperanças tantas vezes expressas e vocalizadas no período de angústia, essas se concretizaram, se tornaram reais, ou o sentimento de necessidade de ajuste e correção social levantado pela epidemia se desvaneceu junto com a própria doença? As consequências econômicas, sociais, culturais, políticas, demográficas e educacionais podem já ser dimensionadas, qualificadas e corrigidas?

Sim, este é o mais longo ato da peça. As sequelas da pandemia de gripe ocorrida entre 1918 e 1919 ainda são objeto de estudos e avaliações, e suas repercussões sociais podem ser demonstradas como atuantes ainda hoje, um século depois de seu fim. A pandemia de covid-19 está longe de um fim que não se pode sequer ainda divisar. O mundo surgirá dela diferente do que era, como se deu depois da Gripe Espanhola, cujas consequências, no entanto, se confundem com as da I Guerra Mundial. Esperemos que seja um mundo melhor.

Rosenberg não menciona a existência de um epílogo. Montada a cena, pede-se que os atores não transformem o teatro em um circo. Se, por incúria, isto ocorrer, espera-se que nenhum palhaço bote fogo à lona.

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