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A esquerda catarinense e o retrato da própria inviabilidade

A cena política de Santa Catarina expõe, com crueza, a profunda desarticulação dos partidos de esquerda no Estado. Não se trata apenas de uma percepção externa ou de crítica adversária: os próprios atores desse campo ideológico reconhecem, ainda que nos bastidores, a sua fragilidade eleitoral e a dificuldade real de construir uma alternativa competitiva para a eleição majoritária de outubro.

O problema não é episódico, nem circunstancial. É estrutural. Falta base, faltam quadros, falta densidade eleitoral e, sobretudo, falta projeto com aderência ao eleitor catarinense.

Um campo fragmentado e sem nomes

Quando se observa o conjunto dos partidos tradicionalmente identificados com a esquerda — PSOL, PDT, Rede, PCdoB, PV e PSB — a pergunta é direta e constrangedora: que nomes, com origem ideológica clara à esquerda, esses partidos dispõem hoje para encabeçar uma chapa majoritária ao governo do Estado?

A resposta, objetiva e incômoda, é nenhuma. Não há liderança com estatura estadual, capilaridade política e musculatura eleitoral para sustentar uma candidatura competitiva.

O PT e o esgotamento de alternativas

No caso do PT, principal força desse espectro ideológico, o cenário não é diferente. As opções são escassas e repetidas.

Décio Lima surge, mais uma vez, como nome natural — já candidato nas duas últimas eleições ao governo e atualmente presidente nacional do Sebrae, cargo de enorme relevância administrativa e orçamentária, comparável, em volume de recursos, a vários ministérios. Sua proximidade pessoal e política com o presidente Lula é um ativo evidente.

Fora Décio, porém, o partido carece de alternativas com peso real. Entre os deputados federais, Ana Paula Lima não se apresenta como opção natural para uma cabeça de chapa. Pedro Uczai, apesar da longevidade parlamentar, nunca conseguiu ultrapassar os limites de um eleitorado restrito e regionalizado.

No âmbito estadual, a bancada é diminuta e sem nomes com projeção majoritária. O resultado dessa fragilidade ficou evidente nas eleições municipais de 2024: em 295 municípios catarinenses, nenhum partido de esquerda conseguiu eleger sequer um prefeito. Nem o PT.

A busca por conservadores

É nesse contexto que se explica o movimento, quase desesperado, de setores da esquerda em direção a nomes de perfil claramente conservador, na tentativa de viabilizar uma candidatura que, formalmente, represente esse campo político.

O PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin — um socialista apenas no rótulo, com longa trajetória tucana e conservadora — liderou as primeiras investidas. Raimundo Colombo foi o primeiro alvo. Recusou.

Na sequência, tentou-se Paulo Bauer. Também não houve adesão. Agora, o nome da vez é Gelson Merisio, atualmente filiado ao Solidariedade e que coordenou a campanha de Décio Lima em 2022. Merisio já declinou de compor a chapa como vice; ao Senado, o nome foi Dário Berger.

Um tripé conservador e derrotado

O dado mais revelador está no histórico desses nomes. Raimundo Colombo construiu sua carreira no PDS, PFL, Democratas e hoje está no PSD. Paulo Bauer passou pelo PDS, que presidiu no Estado, e foi uma das principais lideranças do PSDB. Gelson Merisio fez trajetória abrigado no PFL, DEM e PSD.

Trata-se, portanto, de um tripé de perfil conservador, deslocado ideologicamente do discurso que se pretende sustentar. E mais: todos foram derrotados nas últimas eleições que disputaram.

Colombo perdeu eleições ao Senado em 2018 e 2022. Em 2018, dividiu a derrota com Paulo Bauer. Gelson Merisio, candidato ao governo no mesmo ano, chegou ao segundo turno, mas foi atropelado pela onda bolsonarista que levou Carlos Moisés ao poder.

Incongruência e esgotamento

A incongruência é evidente. A esquerda catarinense tenta convencer o eleitor de que nomes oriundos da direita e do centro poderiam, subitamente, encarnar um projeto progressista. Ao mesmo tempo, recorre a lideranças já derrotadas, sem fôlego eleitoral recente e sem capacidade de renovação simbólica.

Esse movimento não revela astúcia política, mas sim esgotamento. É o retrato de um campo político que perdeu base social, quadros competitivos e conexão com o eleitorado.

Essa é, hoje, a realidade nua e crua da esquerda em Santa Catarina.

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