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A taça do isolamento: a solidão do poder e o alcoolismo invisível

 

Quem observa a movimentação frenética nos salões do poder, nas comitivas oficiais e o peso das canetadas que moldam os rumos de uma nação, raramente consegue enxergar o vazio que habita grande parte das autoridades que ocupam o topo da estrutura de poder. No imaginário popular, ocupar um alto cargo público, seja na chefia do Executivo, Legislativo ou nas altas cortes do Judiciário, é o ápice do prestígio, do sucesso e do controle absoluto. No entanto, os bastidores institucionais sussurram uma realidade psicológica asfixiante e sistematicamente silenciada: a profunda e avassaladora solidão do poder.

É no deserto emocional desse isolamento que o álcool deixa de ser a bebida dos brindes diplomáticos para se tornar uma anestesia diária. Trata-se de uma crise silenciosa que escorrega goela abaixo nas esferas mais altas do Estado, onde o copo cheio é, muitas vezes, a única válvula de escape encontrada para suportar o fardo invisível do cargo, suas responsabilidades, dúvidas, etc.

A solidão, algumas vezes, vivenciada por uma alta autoridade, não decorre da falta de pessoas ao redor. Líderes estão permanentemente cercados por estagiários, assessores, seguranças, parlamentares e lobistas de todos os setores. A escassez ali é de outra ordem: é a ausência ou fragilidade de segurança psicológica. No ecossistema do poder, a paranoia é uma ferramenta de sobrevivência diária. Como desabafar, demonstrar dúvidas ou expor vulnerabilidades quando o aliado de hoje pode ser o adversário de amanhã ? Para o político, por exemplo, mostrar-se humano é visto como suicídio retórico. Exige-se dele uma armadura permanente de infalibilidade. Sufocado pela perda da identidade pessoal e pelo afastamento de laços afetivos genuínos, o líder vê seu mundo encolher até o tamanho de uma mesa de despacho.

Diante de um cenário onde ninguém é totalmente confiável, o álcool surge como o confidente perfeito. Ele é acessível, previsível e socialmente aceito. O início do abuso é sutil, camuflado pela própria engrenagem da poder. Afinal, jantares oficiais e costuras de acordos de bastidores são historicamente banhados a bebidas de alto padrão. O problema real começa quando os holofotes se apagam. Na solidão das residências oficiais, quando o silêncio da noite amplifica o peso das crises de Estado, o álcool passa a ser usado de forma instrumental: para tentar desacelerar o cérebro, silenciar o turbilhão de pensamentos e forçar um sono que a ansiedade insiste em roubar.

Há, ainda, um certo “verniz” de classe que busca proteger o dependente do topo. Diferente do cidadão comum, o governante consome rótulos caríssimos. O alto poder aquisitivo e o prestígio mascaram o alcoolismo sob a charmosa fachada de “apreciador” ou “beber socialmente”. Além disso, o líder opera protegido por uma muralha de silêncio corporativa. Assessores leais, secretários e até familiares frequentemente escondem as garrafas vazias e limpam os rastros do excesso para preservar o mandato, o partido e a estabilidade institucional.

Ocorre que a embriaguez solitária do detentor de poder nunca é um problema puramente individual. Quando a mente que assina decretos, gerencia crises fiscais ou decide sobre a segurança pública está sob o efeito prolongado ou sob a ressaca do álcool, o risco passa a ser inteiramente democrático. Alterações de humor afetam a clareza mental necessária para decisões complexas. Pior: um governante que depende do álcool para funcionar torna-se refém do sigilo daqueles que o protegem. Essa dependência de terceiros abre brechas perigosas para chantagens, favorecimentos ilícitos e a perda progressiva da autonomia política e decisória.

O abuso de álcool nas altas esferas do poder é o sintoma trágico de um sistema que desumaniza seus ocupantes, exigindo deles uma força sobre-humana enquanto os tranca em uma ilha de isolamento. É urgente desmistificar a figura do detentor do poder e encarar a saúde mental de quem detém a caneta como uma questão de estabilidade institucional e de segurança nacional. Os países e grandes instituições precisam criar redes de apoio médico e psicológico estritamente confidenciais para seus tomadores de decisão. Afinal, blindar a mente de quem governa contra o abismo da solidão e do álcool não é uma questão de moralismo, mas sim um ato urgente de preservação da própria democracia.

Fernando Henrique da Silveira

•⁠ ⁠Presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes de Santa Catarina – CONEN;
•⁠ ⁠Advogado, jornalista e radialista;
•⁠ ⁠⁠Pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal;
•⁠ ⁠⁠Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais;
•⁠ ⁠⁠Membro Consultivo da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB/SC.

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