Especialista em investimentos da CredCrea orienta como organizar as finanças sem tentar antecipar o resultado das urnas.
Em um ano de eleições, as decisões sobre crédito, investimentos e expansão de negócios podem ganhar uma variável adicional: a incerteza sobre os rumos da economia. Dúvidas relacionadas a juros, inflação, tributação e política fiscal fazem com que consumidores e empresários adiem algumas decisões e busquem mais segurança antes de comprometer recursos no médio e longo prazo.
Entre profissionais ligados à construção civil, esse cuidado aparece com frequência nas conversas sobre negócios e investimentos. Segundo Álvaro Marques, especialista em investimentos da cooperativa de crédito CredCrea, muitos cooperados acompanham as movimentações do período eleitoral devido ao impacto que eventuais mudanças econômicas podem provocar sobre seus próprios negócios e sobre a demanda de seus clientes.
“O principal não é tentar prever exatamente o que vai acontecer depois das eleições, mas preparar a carteira para diferentes possibilidades. A pessoa precisa olhar para segurança e retorno juntos, e não apenas para a rentabilidade”, explica.
A preocupação chega em um momento de forte pressão sobre o orçamento das famílias. Em julho de 2026, o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa registrou 83,7 milhões de consumidores inadimplentes no país, segundo o levantamento mensal da instituição.
Em Santa Catarina, o índice também chama atenção: 41,6% da população adulta estava inadimplente, de acordo com os dados apresentados pelo Mapa da Inadimplência.
Para quem já possui dívidas ou precisa contratar crédito, o momento exige atenção redobrada. Um dos primeiros cuidados é não considerar apenas a taxa de juros anunciada pela instituição, mas verificar o Custo Efetivo Total (CET) da operação, que reúne os diferentes encargos envolvidos.
“Não basta olhar para a taxa que aparece na primeira tela. É preciso entender quanto aquela operação realmente vai custar até o final. Essa diferença pode mudar completamente a decisão”, afirma Álvaro.
Quem já possui um financiamento também pode avaliar alternativas antes de assumir um novo compromisso. A renegociação e a portabilidade de crédito, por exemplo, podem reduzir o custo de uma dívida quando existem condições mais favoráveis em outra instituição. A comparação deve considerar o custo total da operação e o impacto das parcelas no orçamento.
Diversificação reduz dependência de uma única variável
Para quem tem dinheiro disponível, a lógica é diferente, as decisões não devem ser tomadas apenas com base na expectativa sobre o resultado eleitoral.
Uma das estratégias citadas pelo especialista é distribuir os recursos entre investimentos com características diferentes. Uma carteira pode combinar produtos pós-fixados, prefixados e atrelados à inflação, de acordo com o perfil do investidor, seus objetivos e o prazo para utilização do dinheiro.
“Se os juros permanecerem elevados, uma parte da carteira pode se beneficiar disso. Se começarem a cair, os prefixados podem ganhar relevância. Se a inflação acelerar, os investimentos atrelados a ela ajudam a preservar o poder de compra”, explica.
A escolha, portanto, não deve partir da busca pela maior rentabilidade disponível, mas da relação entre risco, retorno, prazo e objetivo. Para o especialista, até investidores conservadores precisam pensar em diversificação, ainda que permaneçam concentrados em renda fixa.
Como uma maneira de traduzir essa estratégia, Álvaro recorre a uma comparação próxima da realidade dos cooperados da CredCrea: a construção civil. Na analogia, o investimento pós-fixado representa o alicerce da casa, por oferecer a principal base de segurança da carteira e acompanhar a taxa de juros. O prefixado corresponde às paredes, com potencial de valorizar a estrutura quando os juros começam a cair. Já os produtos atrelados à inflação funcionam como o teto, protegendo o patrimônio diante de uma eventual alta dos preços e garantindo um ganho real.
A composição, porém, não é igual para todos. Ela varia conforme o perfil de risco e os objetivos de cada investidor. Para um cooperado conservador, por exemplo, Álvaro cita uma carteira hipotética com 70% em pós-fixados, 15% em prefixados e 15% em produtos atrelados à inflação. A lógica é distribuir os recursos para que a carteira esteja preparada para diferentes movimentos da economia: se os juros permanecerem elevados, o pós-fixado acompanha esse cenário; se começarem a cair, o prefixado pode contribuir para a valorização da carteira; e, se a inflação acelerar, os títulos indexados ao IPCA oferecem proteção.
Reserva financeira ainda é um desafio
A formação de uma reserva é outro ponto que merece atenção. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da ANBIMA, mostra que 31% da população não possui nenhuma reserva financeira. O levantamento, realizado em parceria com o Datafolha, ouviu 5.832 pessoas em todo o país.
O estudo também aponta que 36% da população aplica em produtos financeiros, mostrando que o universo de investidores ainda representa uma parcela minoritária dos brasileiros.
Para Álvaro, antes de pensar em estratégias mais sofisticadas, é necessário construir uma base financeira que permita enfrentar períodos de maior instabilidade sem recorrer imediatamente ao crédito.
A orientação vale especialmente para empresários, que precisam separar as necessidades pessoais das demandas da empresa e manter recursos disponíveis para despesas e oportunidades do negócio.
Educação financeira ajuda a decidir melhor
Mais do que acompanhar diariamente as pesquisas eleitorais ou tentar antecipar cada movimento do mercado, o consumidor pode adotar medidas que independem do resultado das urnas: conhecer o custo das dívidas, manter uma reserva, avaliar o próprio perfil de risco e distribuir os investimentos de acordo com seus objetivos.
“Você não precisa saber exatamente o que vai acontecer para tomar uma boa decisão financeira. Precisa construir uma estrutura que consiga suportar diferentes possibilidades”, resume o especialista.
Em um período marcado por expectativas e mudanças, a educação financeira ajuda a transformar a incerteza em planejamento. Em vez de tomar decisões baseadas em previsões, a recomendação é organizar as finanças para que diferentes caminhos da economia possam ser enfrentados com maior segurança.


