A esquerda catarinense passou 2025 em ritmo de recuperação. A derrota nas eleições municipais de 2024 foi dura, tanto em números quanto em moral política. Num universo de 295 municípios, o PT elegeu apenas sete prefeitos, todos em cidades de pequeno e médio porte. Partidos aliados no campo progressista, como PDT e PSB, não conquistaram nenhuma prefeitura. O resultado expôs a fragilidade estrutural desse campo e impôs um período de recolhimento.
Mas 2026 se aproxima, e o calendário eleitoral não permite longas pausas. A mudança de postura começou a partir de Brasília.
Com a eleição presidencial no horizonte e a necessidade de montar palanques competitivos nos estados, o Planalto passou a pressionar por reorganização em Santa Catarina. O ex-candidato ao governo Décio Lima, que após 2024 dedicou-se mais às agendas nacionais do que à articulação partidária no estado, voltou ao centro das conversas.
Estratégia
O desenho em construção indica Décio como candidato ao Senado, buscando a segunda vaga na disputa. A avaliação interna é de que, depois de duas campanhas majoritárias ao governo e de ter levado o PT ao segundo turno em 2022, ele mantém recall suficiente para uma candidatura competitiva em uma eleição de duas vagas.
Peça-chave
Para o governo do Estado, o nome que emerge como aposta do campo progressista é o do ex-deputado Gelson Merisio, que deve se filiar ao PSB. Com histórico de articulação e trânsito em diferentes espectros políticos, Merisio surge como tentativa de ampliar o alcance da esquerda para além do eleitorado tradicional do PT.
Amplitude
A leitura estratégica é clara: repetir em Santa Catarina a fórmula de alianças mais amplas, combinando um nome com perfil de centro ou centro-esquerda ao governo e um quadro petista consolidado ao Senado.
O desafio de preencher a chapa
Com Merisio ao governo e Décio ao Senado, restam espaços importantes na composição majoritária. E é aí que aparece um problema estrutural: a esquerda catarinense enfrenta escassez de quadros com densidade eleitoral estadual.
Coadjuvantes
O PDT não dispõe hoje de um nome com capilaridade ampla. O PSOL tem figuras conhecidas em nichos urbanos, como Afrânio Boppré, que poderia integrar a chapa ao Senado, mas sem força para encabeçar um projeto majoritário. Diante desse cenário, cresce dentro do PT a tendência de indicar o nome para a vice.
Pedro Uczai ganha centralidade
O deputado federal Pedro Uczai desponta como opção natural. Um dos parlamentares mais votados do estado, com base consolidada no Oeste e trajetória que inclui mandato como prefeito de Chapecó, Uczai tem tudo para ampliar visibilidade nacional ao assumir nesta semana função de maior projeção na Câmara dos Deputados: a liderança do PT.
Opção
Sua eventual presença como vice numa chapa liderada por Merisio serviria para equilibrar o perfil político: um articulador com trânsito mais amplo ao governo e um quadro orgânico do PT, garantindo mobilização da militância e identidade programática.
Reconstrução, não hegemonia
A esquerda não reaparece como força dominante, mas como campo em reconstrução. A estratégia não é de enfrentamento isolado, e sim de composição ampliada, buscando viabilidade eleitoral em um estado historicamente resistente ao PT em disputas majoritárias.
Ar da graça
Depois de um 2025 de silêncio e reorganização interna, 2026 começa a ser desenhado com mais pragmatismo do que discurso. A esquerda catarinense entendeu que, sozinha, encolheu. Agora tenta crescer por soma — e não por hegemonia.






