Blog do Prisco
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Baden-Powell: através do Escotismo, combateu fortemente às drogas.

 

Ao longo dos anos, como conselheiro e posteriormente Presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes de Santa Catarina (CONEN/SC), palestrante na área de prevenção às drogas e estudioso das políticas públicas sobre o tema, aprendi que não existe solução simples e rápida, para um problema tão complexo, multidisciplinar…

Entretanto, também cheguei a uma convicção: nenhuma política será verdadeiramente eficiente se a prevenção continuar ocupando um papel secundário.

Gosto de imaginar um exercício interessante. E se Baden-Powell, fundador do Escotismo, fosse nomeado, hipoteticamente, Conselheiro Nacional sobre Drogas ? Não tenho dúvidas de que sua primeira preocupação não seria discutir apenas repressão ao tráfico, aumento de penas ou ampliação da rede de tratamento. Sua prioridade seria investir na formação das crianças e dos adolescentes.

Baden-Powell compreendeu, há mais de um século, aquilo que muitos governos ainda insistem em ignorar: o caráter também é uma política pública. Quando ensinamos responsabilidade, disciplina, honestidade, respeito ao próximo, liderança e espírito de serviço, estamos construindo barreiras naturais contra o uso de álcool e outras drogas.

Sou grato por ter me tornado escoteiro na adolescência. No Grupo Escoteiro do Ar Hercílio Luz, na cidade de Florianópolis/SC, pude aprender ensinamentos valiosos, idealizados por Baden-Powell. Foram acampamentos, atividades ao ar livre, palestras, hino nacional, bandeira, companheirismo…

No escotismo fiz amigos que cultivo até hoje. Todos se tornaram pessoas de bem, com suas profissões, famílias, experiências, sempre longe das drogas.

Atualmente, nas inúmeras palestras que realizo em escolas, instituições e entidades da sociedade civil, costumo afirmar que a prevenção não começa quando o jovem recebe a primeira oferta de drogas. Ela começa muitos anos antes, dentro da família, na escola, nas igrejas, nos clubes de serviço, nos projetos sociais e em movimentos educativos como o Escotismo, etc.

É justamente aí que reside a grande força do método escoteiro. Ele não forma apenas bons acampantes. Forma cidadãos. Ensina crianças e adolescentes a enfrentar dificuldades, a trabalhar em equipe, a desenvolver autonomia, a assumir responsabilidades e a compreender que direitos caminham ao lado dos deveres. Jovens que encontram propósito, pertencimento e valores sólidos tornam-se muito menos vulneráveis às armadilhas das drogas.

Isso não significa, evidentemente, que o Escotismo resolva sozinho um problema dessa dimensão. O atendimento aos dependentes químicos continuará exigindo profissionais qualificados, serviços de saúde, comunidades terapêuticas sérias, grupos de mútua ajuda, entidades religiosas comprometidas com a recuperação e políticas públicas eficientes de reinserção social. Tudo isso é indispensável.

Mas, se Baden-Powell integrasse um conselho nacional sobre drogas, estou convencido de que faria uma pergunta incômoda aos gestores públicos: por que continuamos investindo muito mais nas consequências do que nas causas? Gastamos cifras elevadas com repressão, sistema prisional e tratamento, enquanto programas permanentes de prevenção ainda recebem investimentos tímidos.

A experiência demonstra que prevenir custa menos, produz resultados mais duradouros e, acima de tudo, preserva vidas. Não há vitória maior do que impedir que um adolescente precise, um dia, buscar tratamento para uma dependência química, lembrando, que muitas vezes, não tem sequer chance, pois o caminho natural leva para o cemitério, presídio…

Talvez a principal recomendação de Baden-Powell aos governantes fosse ampliar os investimentos em iniciativas que formem cidadãos.

Fortalecer o Escotismo, incentivar o esporte, a cultura, o voluntariado e outros movimentos de formação juvenil não seria uma despesa, mas um investimento de altíssimo retorno social.

Depois de tantos anos acompanhando de perto essa realidade, continuo convencido de que o combate às drogas começa muito antes da atuação policial ou do atendimento clínico. Ele começa na educação, na formação do caráter e na construção de oportunidades para que nossos jovens descubram que existe um caminho muito melhor do que aquele oferecido pelas drogas.

Se queremos, de fato, mudar essa realidade, talvez devêssemos ouvir mais Baden-Powell. Mesmo que apenas neste exercício de imaginação, suas ideias continuam extraordinariamente atuais e podem nos ensinar que a prevenção ainda é o mais poderoso instrumento de transformação social.

Sempre alerta !

Fernando Henrique da Silveira

– Advogado, jornalista e radialista;
– ⁠Pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal;
– ⁠Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais;
– ⁠Membro Consultivo da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB/SC.