A três dias da eleição, Carlos e Eduardo Bolsonaro resolveram alimentar uma disputa que só interessa ao adversário. Enquanto Flávio tenta ampliar apoios e conquistar os votos necessários para chegar à Presidência, os irmãos distribuem recados e provocam aliados fundamentais à campanha.
É uma demonstração de irresponsabilidade política. Dois patetas jogando contra o próprio patrimônio, justamente quando deveriam ter a disciplina de ajudar — ou, pelo menos, de ficar quietos.
Os alvos errados
Segundo reportagem de O Globo, Carlos publicou uma mensagem questionando as intenções de políticos que intensificaram o apoio a Flávio no segundo turno. Sem citar nomes, insinuou interesse em vantagens num eventual governo. Aliados de Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira entenderam a publicação como uma indireta aos dois.
Eduardo, por sua vez, compartilhou uma postagem de Kim Paim com críticas à mobilização eleitoral e ataques a Nikolas e outros aliados.
É extraordinário: dois dos principais cabos eleitorais de Flávio precisam gastar energia administrando o ciúme político dos irmãos do candidato.
Uma cobrança sem cabimento
Tarcísio disputava a reeleição ao governo de São Paulo. Nikolas também tinha sua própria eleição para enfrentar em Minas Gerais. Ambos foram reeleitos e ampliaram a participação na campanha presidencial no segundo turno.
Qual é o escândalo? Cumprir a própria agenda eleitoral e, depois, mergulhar na disputa nacional?
O que deveria ser recebido como reforço virou motivo de patrulhamento. Para esse tipo de mentalidade, parece que ninguém pode crescer dentro da direita sem pedir licença à família Bolsonaro.
Quem trabalha e quem atrapalha
Tarcísio mobiliza prefeitos, articula apoios e participa da preparação de Flávio. Nikolas percorre o país e usa sua capacidade de comunicação para alcançar eleitores, inclusive no Nordeste. São duas das principais forças da campanha nesta reta final.
Carlos e Eduardo deveriam reconhecer esse trabalho. Preferem criar desconfiança sobre quem está ajudando.
Não é demonstração de lealdade ao irmão. É um tiro no pé da candidatura que dizem defender.
Flávio precisa impor limites
O contraste favorece Flávio, que demonstra mais equilíbrio e disposição para construir alianças. A aproximação com Tarcísio e Nikolas é acertada. O afastamento das brigas dos irmãos também precisa ser.
A própria reportagem lembra que Flávio já interveio em um conflito entre Eduardo e Nikolas, classificando a disputa como contraproducente e defendendo a união da direita.
Mas chega uma hora em que pedir bom senso não basta. É preciso impor limites. Campanha presidencial não pode ficar refém de ressentimentos familiares.
O Itamaraty não é herança
Flávio acertou ao declarar que Eduardo não será seu ministro das Relações Exteriores. Uma eventual vitória não pode transformar a Esplanada em acomodação de parentes.
Diplomacia exige preparo, prudência e capacidade de interlocução. O Brasil precisa de um chanceler que represente os interesses do país. Sobrenome não é qualificação automática para o cargo.
Se a declaração desagradou a Eduardo, paciência. A Presidência da República exige decisões que nem sempre agradam à mesa de jantar.
Independência também em relação ao pai
Essa autonomia precisa alcançar o próprio Jair Bolsonaro. Respeitar sua trajetória e reconhecer sua liderança não obriga Flávio a repetir seus erros.
As declarações desastrosas de Jair durante a pandemia produziram desgaste e ajudaram a afastar eleitores. A derrota de 2022 teve diversos fatores, mas seria uma cegueira política desprezar o custo das provocações e das falas insensíveis.
Se eleito, Flávio terá de governar com personalidade própria. O mandato será dele, assim como a responsabilidade pelas escolhas.
As companhias certas
Flávio tem a ganhar ouvindo Tarcísio, Nikolas e, especialmente, Rogério Marinho, coordenador de sua campanha presidencial. Marinho reúne experiência, capacidade de articulação e um perfil mais ponderado para administrar divergências.
É o tipo de liderança que precisa estar próximo de um presidente. Tem credenciais, inclusive, para disputar a presidência do Senado e, consequentemente, do Congresso Nacional.
Um governo precisa de gente capaz de construir maioria e entregar resultados. Briga de rede social não substitui articulação política.
A direita não tem dono
A postura de Carlos e Eduardo alimenta uma suspeita incômoda: o crescimento de lideranças fora da família parece incomodá-los mais do que deveria.
Flávio defendeu o fim da reeleição presidencial, inclusive para quem vencer em 2026. Isso abre uma discussão legítima sobre renovação e sucessão. Tarcísio aparece como uma possibilidade para 2030; Nikolas poderá construir seu próprio caminho adiante. Nenhuma dessas perspectivas deveria ser tratada como ameaça.
Tarcísio teria sido uma escolha mais preparada para esta eleição. A candidatura definida foi a de Flávio, e o governador está trabalhando por ela. É essa maturidade que falta aos irmãos.
A fila precisa andar. A direita é um campo político, não uma propriedade hereditária dos Bolsonaro.
Santa Catarina terá de cobrar
O episódio é especialmente desagradável para Santa Catarina, que elegeu Carlos para um mandato de oito anos no Senado. Havia a alternativa de reconduzir Esperidião Amin, com experiência administrativa, conhecimento legislativo e serviços prestados ao estado.
A preferência pelo sobrenome colocou Carlos na cadeira. Agora, o eleitor catarinense terá de cobrar atuação à altura da responsabilidade recebida. Santa Catarina precisa de um senador dedicado aos seus problemas, não de um fiscal dos aliados do próprio irmão.
Carlos e Eduardo precisam decidir se querem contribuir para uma vitória da direita ou preservar o monopólio familiar do protagonismo.
Quem ataca os principais aliados do próprio candidato, a três dias da eleição, está prestando um serviço ao adversário. E sobrenome nenhum torna essa irresponsabilidade aceitável.


