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Escala 6×1 em debate: professor da Univali analisa impactos econômicos e sociais da proposta

Proposta avança no Congresso e reacende discussões sobre trabalho, produtividade e bem-estar no Brasil

Em um cenário de desemprego historicamente baixo, a proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas avança na Câmara dos Deputados e recoloca no centro da agenda nacional uma discussão que combina economia, saúde pública e qualidade de vida.

Com o desemprego em torno de 5,1%, o menor patamar da série recente, e projeções de impacto financeiro que chegam a R$ 178 bilhões por ano, o tema ganha novas camadas a partir da análise do professor do curso de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), economista e mestre em Relações Internacionais, Daniel Corrêa da Silva, que defende a redução da jornada como parte de um processo de modernização produtiva e social.

Para o professor da Univali, o debate não pode se limitar a uma equação de custos. A redução da jornada, afirma, carrega um sentido civilizatório. Em um país que atravessou mais de dois séculos de avanços tecnológicos, automação e digitalização, a permanência de jornadas de 12, 14 ou até 16 horas por dia revela um descompasso entre tecnologia disponível e organização do trabalho. “A tecnologia deveria aliviar o trabalho humano, não intensificá-lo”, afirma Corrêa da Silva, ao analisar a persistência de modelos que empurram o cotidiano laboral para padrões associados ao século 19.

 

Produtividade, tecnologia e o equívoco da comparação direta

O argumento de que o Brasil precisaria elevar a produtividade antes de reduzir a jornada também é questionado pelo docente. Países como Noruega, Bélgica e Irlanda, frequentemente citados como referência, apresentam produtividade entre quatro e sete vezes superior à brasileira, que ocupa a 78ª posição entre 131 países. Ainda assim, segundo o professor, experiências internacionais indicam que a relação entre tempo de trabalho e produtividade não é linear. Iniciativas como o movimento Four Days a Week, no Reino Unido, e projetos-piloto conduzidos por grandes empresas mostram que jornadas menores podem resultar em ganhos expressivos de eficiência. Um dos exemplos citados é o da Microsoft no Japão, onde a redução da semana de trabalho resultou em aumento de cerca de 30% na produtividade. “Trabalhadores mais descansados rendem mais. A redução da jornada pode ser causa, e não consequência, do aumento da produtividade”, avalia.

Na análise de Daniel Corrêa da Silva, a baixa produtividade brasileira não decorre da capacidade do trabalhador, mas de fatores estruturais. O país opera, em grande parte, com tecnologias defasadas, resultado de uma inserção periférica na divisão internacional do trabalho. Setores estratégicos, como o industrial, utilizam matrizes tecnológicas atrasadas em relação às adotadas por multinacionais europeias, norte-americanas e asiáticas. “Nenhum nível de qualificação individual consegue compensar, sozinho, uma base produtiva obsoleta”, observa. Esse cenário se combina a uma economia concentrada em produtos de baixo valor agregado, elevada informalidade e restrições históricas ao investimento.

O debate sobre a jornada de trabalho também atravessa a saúde pública. Dados do Ministério do Trabalho indicam que os afastamentos por questões de saúde mental cresceram mais de 300% entre 2024 e 2025. Para o professor da Univali, tratar esse fenômeno como um problema individual distorce a compreensão do quadro. “São oferecidas soluções paliativas, como auxílios terapêuticos isolados, para um problema que é social e coletivo”, afirma. O impacto é ainda mais intenso sobre as mulheres, que acumulam o trabalho formal com jornadas adicionais de cuidado doméstico e familiar, ampliando desigualdades históricas no mercado de trabalho.

 

Custo, emprego e o discurso do risco

Entidades empresariais alertam para possíveis efeitos adversos da proposta. Estimativas apontam que o custo da hora trabalhada poderia subir até 38%, com risco de eliminação de cerca de 1,2 milhão de vagas no primeiro ano. A Confederação Nacional da Indústria projeta aumento anual de R$ 178 bilhões nos custos do setor industrial. Para Daniel Corrêa da Silva, esses estudos merecem atenção, mas não devem ser interpretados como previsões definitivas. Ele lembra que projeções semelhantes acompanharam outros momentos de ampliação de direitos trabalhistas no país. “Há uma tendência histórica ao alarmismo”, observa, destacando que a redução da jornada pode estimular o consumo de serviços, lazer e turismo, aquecendo o comércio e gerando efeitos positivos em cadeia sobre a economia.

Ao participar ativamente de um dos debates mais relevantes da agenda contemporânea, a Univali reafirma seu papel como espaço de reflexão crítica e produção de conhecimento aplicado às transformações sociais e econômicas do país. Para o professor Daniel Corrêa da Silva, a discussão sobre o fim da escala 6×1 extrapola o campo econômico. “Ela revela o tipo de sociedade que estamos dispostos a construir e o valor que atribuímos ao trabalho e à vida. No espaço universitário, esse debate contribui para ampliar a compreensão pública ao conectar dados, experiências internacionais e a realidade brasileira”, conclui.

 

Contexto
A jornada semanal de 44 horas foi estabelecida no Brasil pela Constituição Federal de 1988. Desde então, propostas de redução tramitaram no Congresso Nacional sem avanços estruturais. A atual discussão marca uma inflexão nesse histórico ao ganhar tração na Câmara dos Deputados, em um cenário de desemprego em patamar historicamente baixo, aceleração tecnológica e crescente preocupação com saúde mental, produtividade e qualidade de vida no trabalho.

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