Único nome da oposição em Balneário Camboriú, Fabrício Oliveira faz menos votos na cidade do que em 2014, mesmo com um eleitorado 25% maior, e volta à suplência de onde saiu há doze anos
Há eleições que se perdem para um adversário. E há aquelas que se perdem para o espelho. Fabrício Oliveira conseguiu a segunda modalidade, mais rara e, convenhamos, mais difícil: disputou a Câmara Federal praticamente sem concorrência na oposição em Balneário Camboriú e, mesmo assim, saiu das urnas menor do que entrou.
A raia estava livre. A prefeita Juliana Pavan não lançou candidato oficial do governo municipal a deputado federal. Cumpriu, um por um, os acordos firmados em 2024 para montar a ampla aliança que a levou à prefeitura, e distribuiu o apoio da administração entre Julio Garcia, Paulinha, Cristiano da Proteção Animal, Pezenti, Ismael dos Santos e Daniel Freitas. Seis nomes dividindo o campo governista. Um único nome com a oposição inteira à disposição. Era o cenário que qualquer candidato pediria a Deus, ao marqueteiro e à Justiça Eleitoral, nessa ordem.
O resultado: 20.998 votos na cidade.
A aritmética não perdoa
Em 2014, antes de sentar na cadeira de prefeito, Fabrício fez 22.818 votos em Balneário Camboriú para federal. Doze anos, dois mandatos algumas inaugurações depois, voltou com 1.820 votos a menos. E o detalhe que piora tudo: o eleitorado do município cresceu 25% no período. Só para manter o mesmo peso de 2014, ele precisaria de algo perto de 28,5 mil votos. Ficou mais de 7 mil abaixo disso.
No total do estado, a palavra é estagnação. Foram 51.494 votos em 2014; agora, 56.454. Um avanço de menos de 10% para quem passou oito anos à frente de uma das cidades mais visíveis de Santa Catarina, com vitrine estadual garantida. Exposição ele teve. Voto, nem tanto.
A ladeira
A série completa na cidade deixa pouca margem para interpretação:
Do auge de 2016 até hoje, o grupo perdeu 11.554 votos em Balneário Camboriú, mais de um terço do seu capital eleitoral. Não é oscilação. É tendência. E tendência que nenhum vídeo de drone desfaz.
De volta ao ponto de partida
Há ainda um simbolismo difícil de ignorar. Pela segunda vez, Fabrício termina como suplente da deputada Geovânia de Sá. A primeira foi em 2014, pelo PSB. A segunda, agora, pelo Republicanos. Doze anos, outra sigla, o mesmo lugar na fila. Na política, tem gente que constrói trajetória e tem gente que dá a volta no quarteirão.
Coerência, essa desconhecida
Falar em sigla, aliás, exige fôlego. Fabrício já passou pelo PV, pelo PTB, pelo PSB, pelo Podemos e fez uma escala rápida no PL. Depois da derrota de 2024, ao perceber que a legenda estava congestionada, desembarcou sem cerimônia e foi parar no Republicanos. Para quem dois anos antes dividia palanque com a família Bolsonaro, é um itinerário no mínimo criativo.
Vale lembrar o roteiro. Em 2022, abraçou a campanha de Jair Bolsonaro só no segundo turno. Em 2024, trouxe a Balneário Camboriú o ex-presidente, Michelle, Eduardo e Nikolas Ferreira, e ainda tinha Jair Renan na própria coligação. Com todo esse elenco no palco, perdeu para Juliana Pavan. Em 2026, trocou o figurino: pouco material casado com Flávio Bolsonaro, nenhum grande evento para Carol de Toni ou Carlos Bolsonaro, e um tom morno contra o PT. Preferiu a isenção.
O eleitor de direita entendeu o recado e respondeu na mesma moeda. Julia Zanatta fez 9.906 votos na cidade. Jair Renan Bolsonaro, 5.534. Rubens Angioletti, 1.314. Somados, 16.754 votos, perto de 80% da votação de Fabrício, entregues a três nomes sem qualquer raiz histórica em Balneário Camboriú. Quando precisa escolher entre o original e quem só veste a camisa quando convém, o eleitor costuma ficar com o original.
Fugiu da briga certa
O capítulo mais revelador talvez seja o que não aconteceu. O plano era disputar uma vaga de deputado estadual. Ali, o confronto seria direto com Carlos Humberto, candidato do governo e, ironia das ironias, seu vice-prefeito por dois mandatos. Na última hora, Fabrício trocou de partido mais uma vez e foi para federal, numa sigla que, pelos cálculos, elegeria alguém com a menor votação. Escolheu a porta dos fundos. Ela também estava fechada.
O contraste fala sozinho. Fabrício somou 56.454 votos no estado. Carlos Humberto, disputando estadual, com um número muito maior de concorrentes diretos, chegou a 55.486, marca histórica. Praticamente o mesmo volume de votos, numa disputa bem mais dura e sem precisar fugir de ninguém. Se esta eleição tem um grande vencedor em Balneário Camboriú, ele não é o ex-prefeito. É o ex-vice.
O recado das urnas
O domingo diz mais sobre a cidade do que sobre qualquer candidato isolado. Balneário Camboriú virou a página. Juliana Pavan fez o que se espera de quem governa com aliança ampla: honrou compromissos, dividiu espaço e, mesmo sem nome próprio na disputa federal, viu o campo governista sair das urnas mais forte, com Carlos Humberto no topo. Já a oposição tinha a pista inteira livre e um único corredor. Ele tropeçou sozinho.
Fabrício Oliveira ainda tem um eleitorado fiel, e 20 mil votos não são desprezíveis. Mas liderança não se mede pelo que sobrou, e sim pela direção. E a direção, há dez anos, aponta para baixo.


