Bastaram poucos dias depois do segundo turno para Flávio Bolsonaro comprometer a imagem que passou meses tentando construir. O candidato sereno, moderado e disposto a conduzir uma direita mais equilibrada não sustentou o personagem diante da derrota. Quando chegou a hora de demonstrar maturidade, faltou liderança.
Quase 60 milhões de brasileiros lhe confiaram o voto. Esse resultado impunha uma responsabilidade: permanecer no país, organizar a oposição e enfrentar o governo que saíra vencedor. Flávio escolheu partir para os Estados Unidos, onde desembarcou nesta quarta-feira (28). Deixou aos aliados a tarefa de explicar uma decisão que produziu perplexidade justamente entre aqueles que esperavam dele firmeza e equilíbrio.
A moderação não resistiu
A derrota é um teste de caráter político. Durante a campanha, com palanque, aplausos e perspectiva de vitória, é mais fácil apresentar-se como estadista. A consistência aparece quando as urnas contrariam o projeto.
Flávio tinha a oportunidade de sair da eleição como uma referência nacional da oposição. Preferiu uma reação que coloca em dúvida a autenticidade de toda aquela moderação. O comportamento posterior à votação aproxima-o dos impulsos do pai e dos irmãos, dos quais parecia tentar se diferenciar.
O eleitor conservador não entregou seu voto para assistir a mais um capítulo de um drama familiar. Esperava representação, continuidade e disposição para lutar politicamente dentro do Brasil.
Conselho não faltou
Tarcísio de Freitas revelou, em entrevista ao Estadão, que aconselhou Flávio a permanecer no país. A orientação era utilizar os instrumentos da Justiça Eleitoral para apresentar eventuais questionamentos sobre a disputa. Flávio escolheu outro caminho.
Não faltou, portanto, uma voz sensata. Faltou disposição para ouvi-la.
Qualquer acolhimento oferecido no exterior deveria ter sido ponderado à luz da responsabilidade assumida perante milhões de brasileiros. Nenhum apoio internacional substitui a presença de quem pretende, ou pretendia, comandar uma oposição nacional.
Moraes não serve de desculpa
É possível criticar a atuação de Alexandre de Moraes, cobrar os fundamentos de suas decisões e exigir controle sobre o exercício do poder judicial. O próprio Tarcísio questionou a exigência de entrega dos passaportes e classificou a medida como intimidação.
Essa crítica, porém, não transforma a decisão de Flávio em demonstração de coragem ou inteligência política.
Se considera que sofre arbitrariedades, deve enfrentá-las com defesa jurídica, atuação parlamentar e mobilização pública. A condição de filho de um ex-presidente preso explica a tensão pessoal, mas não elimina a responsabilidade política de quem disputou a Presidência.
A direita precisa cobrar limites do Judiciário com seriedade. Subordinar essa agenda às reações da família Bolsonaro enfraquece uma discussão que é institucional e interessa ao país inteiro.
Um patrimônio colocado em risco
Não existe pesquisa que permita calcular quantos eleitores Flávio perdeu desde domingo. Seria artificial atribuir um percentual ao desgaste. Mas o erro político é evidente: ele colocou em risco o capital acumulado durante a campanha no momento em que deveria começar a organizá-lo.
Voto não é escritura de propriedade. Os quase 60 milhões de brasileiros que o apoiaram não pertencem à família Bolsonaro. Parte expressiva desse eleitorado votou contra o PT, contra Lula e a favor de uma alternativa conservadora.
A votação poderia sustentar uma liderança. Para isso, precisava ser acompanhada de presença e capacidade de articulação. Uma oposição comandada à distância, por vídeos e manifestações nos Estados Unidos, terá dificuldade para oferecer qualquer uma dessas coisas.
Tarcísio ocupa o espaço
Em política, o espaço abandonado acaba ocupado. Tarcísio já reunia condições para assumir protagonismo depois da eleição. A saída de Flávio acelera esse movimento.
O governador tem mandato, administra São Paulo e dispõe de uma estrutura política capaz de transformar discurso em ação. Pode apresentar resultados, reunir aliados e confrontar o governo federal em temas concretos: economia, segurança, infraestrutura e gestão.
Na entrevista ao Estadão, admitiu a possibilidade de disputar a Presidência em 2030, condicionando essa perspectiva a um bom segundo mandato e a uma decisão coletiva. Ainda não é uma candidatura anunciada, mas o horizonte está colocado.
A direita não tem obrigação de esperar indefinidamente pela autorização de um sobrenome. Se Tarcísio consolidar sua liderança, terá legitimidade para disputar, inclusive diante de eventual resistência dos Bolsonaro.
Marinho tem papel a cumprir
No Congresso, o senador Rogério Marinho também reúne condições para ganhar espaço. Além de líder da bancada do PL, foi o coordenador geral da campanha de Flávio.
A oposição precisará de gente que negocie, organize bancadas, fiscalize despesas e enfrente o governo com argumentos. Equilíbrio não é fraqueza. Capacidade de articulação não é rendição.
Marinho no Parlamento e Tarcísio no governo de São Paulo podem oferecer uma direção mais consistente a um campo político que precisa superar a dependência dos humores familiares.
O cálculo de Alcolumbre
Nesse ambiente, a movimentação de Davi Alcolumbre exige desconfiança. Segundo reportagem da Folha, baseada em relatos de aliados, o presidente do Senado pretende articular indulto a Jair Bolsonaro e anistia aos brasileiros condenados por um golpe inexistente. Isso para obter apoio da direita à sua recondução ao comando da Casa.
Se esse for o arranjo, o nome adequado é conveniência política. A situação de pessoas injustamente presas não pode virar moeda de troca para garantir mais dois anos na cadeira.
A direita precisa discutir anistia e eventuais excessos com critérios claros. Entregar apoio em troca de uma promessa de Alcolumbre seria aceitar que uma pauta apresentada como questão de justiça se transforme em instrumento de sobrevivência pessoal.
O sobrenome perdeu a exclusividade
Jair Bolsonaro venceu em 2018 impulsionado pelo antipetismo e teve a oportunidade de consolidar um projeto de governo. Perdeu a reeleição em 2022. Agora, Lula derrotou também o filho.
Esses resultados deveriam produzir uma revisão profunda das escolhas, do comportamento e da estratégia. Insistir que a solução estará sempre dentro da mesma família é fechar os olhos para o recado das urnas.
Os Bolsonaro não desaparecerão da política de uma hora para outra. Conservam eleitores, mandatos e capacidade de mobilização. O que está em questão é sua pretensão de continuar determinando, sozinhos, quem pode liderar a direita.
Flávio contribuiu para enfraquecer essa exclusividade quando deixou o país no momento em que deveria assumir o comando da trincheira oposicionista.
Santa Catarina também terá de escolher
Com Flávio nos Estados Unidos, onde Eduardo já vive, ganham destaque os mandatos conquistados em Santa Catarina por Carlos Bolsonaro, para o Senado, e Jair Renan, para a Câmara Federal. Foram os filhos que restaram a Jair Bolsonaro em solo brasileiro.
Esses mandatos asseguram presença institucional à família. Não garantem, entretanto, a continuidade de sua liderança sobre todo o eleitorado conservador.
Santa Catarina, um dos principais redutos do bolsonarismo desde 2018, também poderá participar dessa transição. O eleitor catarinense não precisa abandonar suas convicções para reconhecer uma liderança diferente. Pode continuar defendendo liberdade econômica, segurança e responsabilidade fiscal, cobrando ao mesmo tempo maturidade de quem pretende representá-lo.
Tarcísio tem condições de ocupar esse espaço. Precisará conquistá-lo com resultados e articulação, mas encontrou o caminho mais aberto depois da decisão de Flávio.
Uma direita além da família
A eleição não encerrou automaticamente o lulismo nem o bolsonarismo. Abriu, contudo, uma disputa sobre quem conduzirá esses campos nos próximos anos. Lula terá de lidar com sua própria sucessão. A direita precisa preparar uma alternativa capaz de vencer e governar.
Flávio recebeu votos suficientes para assumir papel de relevo. Sua reação à derrota o afastou dessa tarefa e fortaleceu quem demonstrou disposição para permanecer, trabalhar e organizar o futuro.
A direita é maior do que a família Bolsonaro. E não precisa pedir licença a ela para seguir em frente.


