A eleição terminou, mas a ofensiva contra Flávio Bolsonaro não esperou a poeira baixar. O tratamento dispensado ao senador tem contornos de perseguição política. A derrota nas urnas foi imediatamente acompanhada por restrições determinadas por Alexandre de Moraes.
Quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio. Esse patrimônio político não pode ser apagado pela caneta de um ministro. Sua saída do Brasil abre a possibilidade de uma estratégia para preservar a liderança e levar o enfrentamento ao exterior.
Sete minutos
Segundo reportagem sobre a cronologia do caso, a Polícia Federal pediu a apreensão do passaporte de Flávio sete minutos depois da confirmação de sua derrota.
Sete minutos. Uma velocidade impressionante num país em que investigações e processos frequentemente se arrastam durante anos.
A pergunta é inevitável: o que justificava tamanha urgência naquele momento? A sequência exige uma explicação pública convincente. O habitual “cumpra-se” não basta.
O imperador de toga
Alexandre de Moraes, o Xandão, parece confortável no papel de imperador da República. Decide, restringe, impõe e espera obediência. Quando surgem críticas, o discurso da defesa das instituições entra em cena.
Mas instituição não é propriedade de ministro. Defender o Supremo não significa conceder poderes ilimitados aos seus integrantes.
A Constituição não criou uma monarquia judicial.
A autoridade em questão
Com que autoridade moral Moraes exige confiança irrestrita enquanto deve explicações sobre suas relações com Daniel Vorcaro e o contrato milionário do escritório de sua mulher com o Banco Master?
O rigor que cobra dos outros precisa alcançar sua própria porta. Relações dessa dimensão exigem respostas públicas, investigação independente e transparência absoluta.
O Supremo não pode funcionar como escudo dos próprios integrantes. Cada esclarecimento adiado aprofunda o desgaste da Corte. O cargo exige responsabilidade. Não concede blindagem.
Uma operação articulada
Segundo aliados ouvidos pela Folha de S.Paulo, o governo Trump está ciente da chegada de Flávio aos Estados Unidos. Um interlocutor afirma que a administração americana teria participado ativamente do plano para retirá-lo do Brasil.
O relato reforça a hipótese de uma operação planejada diante da ofensiva judicial. A participação pessoal atribuída a Marco Rubio ainda depende de confirmação.
Se comprovado esse envolvimento, o episódio terá alcançado um patamar muito superior ao de uma simples viagem.
Washington observa
Até as informações disponíveis nesta terça-feira, Trump não havia reconhecido publicamente a vitória de Lula. Também questionou a eleição brasileira, sem apresentar provas.
Flávio encontra nesse ambiente espaço para levar suas contestações sobre o uso da máquina governamental e a atuação do Judiciário a interlocutores americanos.
O Planalto terá de responder politicamente a essa exposição. Uma vitória eleitoral não coloca os atos do governo acima de questionamento.
Fora do alcance da caneta
Estar nos Estados Unidos pode permitir a Flávio organizar apoios e ampliar a repercussão das medidas que denuncia como persecutórias.
A estratégia será testada por sua capacidade de manter o eleitorado mobilizado e construir uma agenda de oposição que ultrapasse a defesa pessoal.
Moraes pode determinar restrições no Brasil. Não controla o debate americano nem a repercussão de seus atos fora do país. Nesse palco, o “imperador” não dá a última palavra.
A hora do Senado
A pressão externa pode ampliar o desgaste do Supremo. Mas a resposta institucional precisa vir do Congresso brasileiro.
Os senadores conservadores serão cobrados pelos compromissos assumidos. Os pedidos de impeachment precisam ser examinados com seriedade, pelos procedimentos constitucionais, sem serem enterrados por conveniência política.
Chega de valentia eleitoral seguida de acomodação em Brasília.
A direita permanece forte
Lula venceu a eleição. A direita continua com governadores, bancadas e milhões de brasileiros que rejeitam o projeto petista.
Tarcísio de Freitas e as demais lideranças terão papel decisivo. Flávio poderá manter protagonismo se transformar essa movimentação em atuação consistente.
O resultado precisa ser reconhecido. O governo precisa ser fiscalizado. E os excessos do Judiciário precisam ser enfrentados pelos meios constitucionais.
A eleição acabou. A oposição continua. O Brasil não pertence ao PT, e a República não pertence a Alexandre de Moraes.


