Conta-se uma história que, certo dia um grupo de jovens desocupados entrou numa
loja de eletrodomésticos no período da noite por uma porta que ficara aberta, e
resolveram não roubar nada, mas fizeram uma brincadeira mudando todos os preços
das mercadorias.
Uma geladeira que valia R$ 3.500,00 estava sendo oferecida por apenas R$ 15,00,
e uma bacia de plástico que custava R$ 6,00 estava com o valor de R$ 750,00. Outros
produtos também tiveram seus preços trocados.
No dia seguinte os funcionários não perceberam a inversão de valores até que os
clientes começaram a chegar para comprar. Houve uma correria enorme de pessoas a
loja por causa da troca de valores.
Parece incrível, mas este fato, infelizmente, tem acontecido nos dias atuais, onde
ocorre uma grande inversão de valores éticos e morais, e poucos têm se apercebido
disto.
Li dia desses o conceito de cinismo, dizendo ser a pessoa que sabe o preço de
todas as coisas, mas não conhece o valor de nenhuma delas.
Chego então à conclusão de que estamos vivendo numa época de puro cinismo,
pois as pessoas e os objetos são avaliados unicamente pelos valores após o cifrão.
Fico extremamente revoltado e ao mesmo tempo envergonhado quando vejo ou
leio algo sobre leilão de obras de artes. Perdoem-me os colecionadores de obras de arte
e seus admiradores, mas o que vem acontecendo no mundo é algo desumano.
Vocês sabiam que no mundo em 2025, cerca de 35 milhões de crianças menores
de 5 anos sofreram desnutrição aguda e quase 10 milhões dessas crianças estavam em
estado grave?
O filósofo australiano Peter Singer disse que “há uma mácula moral em um mundo
rico como o nosso”.
Um exemplo do que falei foi o preço de US$ 45 milhões que o Metropolitan
Museum of Art, de Nova Iorque pagou por um quadro de Duccio. Quantas crianças
poderiam ser alimentadas com um valor desses?
Isso nos leva a crer que, se o museu estivesse em chamas, alguém consideraria
mais correto salvar o quadro do incêndio e não uma criança que porventura estivesse ali.
Outro fato agora bem mais próximo de todos nós e igualmente grave em se
tratando de inversão de valores, é vermos muitas pessoas deixando seus pais idosos em
casa e saindo a passear com seus pets nos shoppings. A lista seria enorme se eu
continuasse.
Nós estamos urgentemente precisando de uma direção, de reafirmar os valores
corretos e que nos acompanharão no amanhã. Precisamos ter coragem de falar e
escrever contra tudo aquilo que agride a dignidade humana.
As pessoas valem pelo que têm e não pelo que são. Valoriza-se o traje e não
aquele que o veste. O mapa da fome está tingindo de preto mais da metade do Brasil e
do mundo.
Não podemos permanecer insensíveis e de braços cruzados para resolver este
grave problema social.
Pratos vazios seguros por mãos trêmulas e fracas é um símbolo do sofrimento e da
miséria que ameaçam a paz e a estabilidade do mundo.
Mas o que está sendo muito indigesto para mim nos últimos tempos é que o mundo
gasta milhões em obras de arte, e ao mesmo tempo milhares de pessoas perecem por
pura falta de alimento.
Não há estômago que agüente!
RICARDO WINTER
ricardof.winter@gmail.com


