O paralelo entre as votações para a Presidência e o governo de Santa Catarina ajuda a dimensionar o resultado das urnas. Flávio Bolsonaro alcançou 3.000.020 votos, equivalentes a 66,65% dos válidos. Jorginho Mello foi reeleito com 68,98%. Uma diferença de apenas 2,33 pontos percentuais, com o governador ligeiramente à frente.
Os números mostram a força dos dois projetos no estado. Jorginho conseguiu acompanhar o desempenho presidencial do PL e ainda superá-lo percentualmente. Seus adversários ficaram muito longe de produzir uma combinação semelhante.
A aposta em Merísio não deu liga
Lula recebeu 25,04% dos votos catarinenses. Gelson Merísio ficou com 15,66% na disputa estadual: uma distância de 9,38 pontos percentuais.
A aposta num político oriundo da centro-direita pretendia ampliar o alcance da aliança liderada pela esquerda. O resultado ficou aquém dessa ambição. Merísio terminou com uma participação nos votos válidos bem inferior à do próprio Lula.
A comparação não permite identificar como cada eleitor combinou seus votos. Politicamente, porém, evidencia a dificuldade de transformar aquela composição em uma candidatura estadual competitiva. O projeto de expansão acabou produzindo uma votação menor que a referência presidencial da aliança.
João ficou 55,63 pontos atrás
Mais contundente foi o recado para João Rodrigues. O ex-prefeito de Chapecó terminou em terceiro, com 13,35%. Jorginho abriu uma vantagem de 55,63 pontos percentuais. Uma distância dessa dimensão exige uma revisão profunda de estratégia.
João preferiu continuar nas entrevistas. E passou a apresentar, depois da derrota, reflexões que teriam sido muito mais úteis antes da campanha.
Ao Grupo DI, afirmou que estava no partido errado, porque se considera de direita e o PSD é de centro. Também reconheceu que deveria ter construído uma aliança com Jorginho quando essa possibilidade foi apresentada por Jair Bolsonaro.
A descoberta tardia
O perfil do PSD não nasceu no dia seguinte à eleição. Era conhecido quando João aceitou a estrutura, os aliados e o espaço partidário para disputar o governo. Descobrir essa incompatibilidade depois da derrota soa mais como procura de uma explicação conveniente do que como novidade ideológica.
Bolsonaro havia defendido publicamente sua candidatura ao Senado, numa composição com Jorginho à reeleição. João escolheu o confronto pelo governo. Tinha esse direito, mas precisa assumir o peso da escolha.
Agora, antes mesmo de terminar o segundo turno presidencial, questiona a legenda que sustentou sua candidatura. Falta medida na avaliação e sobra pressa para anunciar o próximo movimento.
Trocar de partido não resolve tudo
A questão seguinte é simples: para onde ir?
Uma aproximação com o PL exigiria reconstruir relações com o grupo de Jorginho, depois de uma campanha de enfrentamento. Buscar outra sigla de direita também não elimina esse obstáculo: boa parte desse campo político catarinense gravita em torno do governador.
Mudar a ficha de filiação é mais fácil do que recuperar espaço, confiança e capacidade de articulação. O problema de João não cabe apenas na sigla que aparece ao lado de seu nome.
O aviso de Gean
O exemplo de Gean Loureiro está próximo. Depois de terminar em quarto na disputa pelo governo em 2022, o ex-prefeito de Florianópolis tentou voltar à Assembleia em 2026. Recebeu 37.804 votos e ficou na suplência.
João deveria observar essa trajetória com atenção. Uma candidatura majoritária não garante um mandato proporcional na eleição seguinte. Para chegar competitivo a 2030, terá de trabalhar, reconstruir alianças e demonstrar que compreendeu o resultado.
As urnas já deram o diagnóstico. Culpar o partido não substitui a autocrítica.







