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Lealdade sem reciprocidade

A relação do governador Jorginho Mello com o bolsonarismo nacional atravessa um momento delicado — e revelador. Depois de anos se posicionando como um dos mais fiéis escudeiros de Jair Bolsonaro, o catarinense começa a perceber que, na política, lealdade nem sempre gera tratamento proporcional. Decisões tomadas em Brasília, muitas vezes sem sintonia com a realidade de Santa Catarina, têm atropelado articulações construídas com cuidado no plano estadual e exposto o governador a constrangimentos desnecessários dentro do próprio campo aliado.

O problema não é apenas de vaidade ou de protocolo político. Trata-se de autoridade, previsibilidade e comando de grupo. Quando um governador vê acordos locais serem revistos por pressões externas, a mensagem que chega à base é de instabilidade. E, em política, ruído prolongado quase sempre vira oportunidade para adversários.

Fidelidade comprovada

Jorginho nunca economizou gestos em direção a Bolsonaro. Esteve presente em manifestações, fez reiteradas declarações de apoio, manteve proximidade nos momentos mais sensíveis e sempre se posicionou como um aliado de primeira hora do ex-presidente e de seu entorno político e familiar. Não houve ambiguidade, nem distanciamento tático.

Mão única

Esse histórico reforça a percepção de que o tratamento recente dado ao governador pela cúpula nacional do PL e por aliados do bolsonarismo em Brasília está aquém do que seria esperado de uma relação entre parceiros estratégicos.

Interferência em série

O ponto de tensão se concentra na montagem da chapa majoritária em Santa Catarina. Jorginho vinha conduzindo uma engenharia política ajustada à realidade local, acomodando partidos, lideranças regionais e espaços de poder de forma a montar um palanque competitivo e relativamente coeso.

Guinadas

No meio do processo, porém, decisões e pressões externas passaram a reabrir discussões já encaminhadas. Lideranças nacionais, preocupadas com seus próprios acordos e disputas, passaram a tratar a composição catarinense como peça de um tabuleiro maior — ignorando que, no Estado, as variáveis são outras.

A conta do Senado

A disputa pelas vagas ao Senado virou o principal foco de atrito. Partidos aliados em nível nacional começaram a cobrar espaço na chapa catarinense como parte de “compensações” políticas que extrapolam as fronteiras do Estado. O recado foi claro: sem contemplação, não há alinhamento pleno.

Pressões

Jorginho, que já administrava compromissos locais, viu-se pressionado a rever cenários para atender interesses que não nasceram em Santa Catarina. O resultado é um mal-estar evidente e a sensação de que o governador está pagando uma fatura que não foi emitida por ele.

Desgaste desnecessário

Nada disso inviabiliza o projeto eleitoral. Convenções ainda vão acontecer, ajustes são comuns e a política permite reviravoltas até a última hora. Mas o processo, até aqui, gera desgaste.

Passa ao eleitorado e às lideranças regionais a imagem de um governador que, apesar do cargo e da lealdade demonstrada, não tem controle absoluto sobre a própria aliança. Para adversários experientes, esse tipo de narrativa pode fazer a diferença.

Olho vivo da concorrência

Enquanto a esquerda tende a ter um campo mais previsível do ponto de vista ideológico e partidário, a direita não governista acompanha cada ruído com atenção. João Rodrigues, por exemplo, depende diretamente do grau de conforto — ou desconforto — dos partidos dentro da órbita de Jorginho.

Federação

Siglas como PP, União Brasil e a federação que envolve essas forças tornam-se peças-chave. Se estiverem plenamente contempladas, a tendência é de permanência no projeto do governador. Se se sentirem preteridas, passam a ser alvo natural de uma alternativa à direita.

MDB dividido, como sempre

O MDB mantém sua tradição catarinense: divisão interna. Uma ala mais próxima do governo tende a seguir com Jorginho; outra observa o cenário e não descarta novos arranjos. O partido, como bloco, perde força de imposição, mas continua relevante pela capilaridade regional e pelo peso de suas lideranças locais.

Dois tabuleiros

O desafio de Jorginho Mello é claro: harmonizar o tabuleiro estadual, onde tem domínio político e administrativo, com o tabuleiro nacional, onde prevalecem interesses maiores e, muitas vezes, pouco sensíveis às particularidades de Santa Catarina.

Desafio

Se conseguir impor sua lógica local sem romper com o campo nacional, sai fortalecido. Se continuar sendo surpreendido por movimentos de Brasília, corre o risco de transformar lealdade em vulnerabilidade — e oferecer aos adversários um flanco que, até aqui, ele próprio não havia aberto.

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