Há oito anos, o ex-deputado Gelson Merisio enfrentava o maior desafio de sua trajetória política: a disputa pelo governo de Santa Catarina. Era sua primeira eleição majoritária e a campanha começou sob a aura do favoritismo.
Não por acaso. À época, Merisio presidia a Assembleia Legislativa e tinha no comando da Fazenda estadual seu cunhado, o advogado Antônio Gavazzoni, um dos mais influentes auxiliares do então governador Raimundo Colombo. Na prática, a pré-candidatura orbitava em torno de duas estruturas poderosas: o Palácio Barriga-Verde e o Centro Administrativo — o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa.
O cenário indicava um desfecho previsível: Merisio e o emedebista Mauro Mariani se enfrentariam no segundo turno. A política catarinense caminhava para uma disputa convencional — até que um fenômeno nacional alterou completamente o tabuleiro.
Onda Bolsonaro
A eleição de 2018 foi atravessada pelo furacão eleitoral de Jair Bolsonaro. Em Santa Catarina, um estado histórica e essencialmente conservador, o então candidato à Presidência encontrou terreno especialmente fértil. No segundo turno, Bolsonaro alcançou quase 76% dos votos — o terceiro melhor desempenho proporcional do país.
Tarrafada
A chamada “onda Bolsonaro” produziu efeitos em cadeia. O movimento elegeu quatro deputados federais, seis deputados estaduais, além do governador e da vice.
Por apenas 18 mil votos não conquistou também uma das vagas ao Senado, com Lucas Esmeraldino. Ele acabou derrotado por Jorginho Mello, que venceu a disputa ao Senado integrando a chapa liderada por Mauro Mariani. O cabeça de chapa, aliás, cumpriu o combinado e o MDB não lançou candidato à Câmara Alta.
Segundo turno
Apesar do tsunami bolsonarista, Merisio conseguiu avançar ao segundo turno. Quem acabou fora da disputa foi justamente Mauro Mariani, contrariando todas as projeções iniciais.
Eixo deslocado
Mas a segunda etapa da eleição revelou o tamanho da mudança política em curso. Merisio terminou a disputa com cerca de 50 mil votos a menos do que havia obtido no primeiro turno.
A maioria do eleitorado catarinense convergiu para o candidato identificado — ainda que de forma indireta — com Bolsonaro: o até então ilustre desconhecido Carlos Moisés da Silva.
Rebeldia
Curiosamente, o próprio Bolsonaro demonstrava contrariedade com a composição local. Seu apoio explícito era ao candidato ao Senado, Lucas Esmeraldino, e não ao postulante ao governo lançado pelo então PSL à revelia da direção nacional.
Saída estratégica
Derrotado e surpreendido por uma conjuntura que fugiu completamente às previsões tradicionais da política estadual, Merisio optou por uma inflexão em sua trajetória.
Afastou-se das disputas eleitorais e migrou para o ambiente empresarial, assumindo funções como conselheiro da poderosa JBS.
Mergulho
Durante alguns anos permaneceu fora do processo eleitoral direto — até protagonizar um movimento inesperado.
Virada 2022
Em 2022, Merisio deu uma guinada política. De candidato que declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno de 2018, tornou-se coordenador da campanha de Décio Lima ao governo e de Dário Berger ao Senado, numa articulação voltada a oferecer palanque estadual para Luiz Inácio Lula da Silva.
Recusou, inclusive, o convite para ocupar a vice na chapa de Décio Lima. Preferiu atuar nos bastidores da estratégia eleitoral.
Nova missão
Agora, Merisio retorna ao protagonismo eleitoral. A tarefa que lhe foi atribuída é clara: reduzir a enorme diferença eleitoral entre bolsonaristas e lulistas em Santa Catarina.
Em 2022, Bolsonaro venceu Lula no Estado por cerca de 70% a 30% dos votos. Um cenário adverso que o PT e seus aliados pretendem ao menos amenizar na próxima disputa.
Segundo voto
Além disso, a candidatura de Merisio pode contribuir para fortalecer o projeto de eleição ao Senado de Décio Lima, aliado histórico de Lula.
Máquina dupla
Nos bastidores, o projeto conta com um diferencial relevante: a combinação entre estrutura política e apoio empresarial.
De um lado, a máquina federal e as conexões institucionais em Brasília. De outro, o respaldo de uma das maiores empresas do agronegócio mundial, a JBS, onde Merisio atua.
De volta
Essa engrenagem política e econômica tende a dar musculatura à candidatura do ex-deputado, que já percorre o Estado estreitando laços com lideranças do PT — uma aproximação que, anos atrás, seria considerada improvável para alguém historicamente identificado com o campo conservador.
Plano 2027
Mas a pergunta que começa a circular nos bastidores vai além da eleição catarinense.
A candidatura de Merisio atende apenas ao chamado político de Lula e aos interesses estratégicos da JBS? Ou existe algo mais no horizonte?
Esplanada na mira?
Entre interlocutores próximos do Planalto, a avaliação é de que há, sim, uma possibilidade concreta: em um eventual quarto mandato de Lula, Merisio poderia ser lembrado para comandar o Ministério da Agricultura — área diretamente ligada ao setor em que hoje atua no ambiente empresarial.
Timing
Se essa hipótese se confirmará ou não, apenas o tempo dirá. Por enquanto, o que se sabe é que o ex-presidente da Assembleia voltou ao jogo.
E, desta vez, com uma missão que ultrapassa as fronteiras de Santa Catarina.






