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O poderoso oportunista

O PSD consolidou, ao longo dos últimos anos, um perfil que muitos definem como pragmático; outros, de forma mais direta, classificam como abertamente oportunista. Essa característica ganha contornos ainda mais evidentes quando observada a atuação de seu presidente nacional, Gilberto Kassab, mestre na arte de manter portas abertas em todos os campos do tabuleiro político.

Em sucessivas eleições, o partido adota uma estratégia recorrente: evita amarras nacionais rígidas e concede ampla autonomia às suas estruturas estaduais. O próprio Kassab já admitiu publicamente essa linha de atuação. Ao comentar o cenário presidencial, deixou claro que o PSD pode ter candidato próprio — ou simplesmente não ter — a depender de quem esteja no páreo. Se Tarcísio de Freitas entrar na disputa, a tendência seria recuar. Se o nome for outro, como Flávio Bolsonaro, o partido pode lançar candidatura e até montar uma chapa “pura” com dois de seus três presidenciáveis: Ratinho Júnior, Eduardo Leite e, agora, Ronaldo Caiado.

Mas tudo isso vem acompanhado de uma cláusula permanente: os diretórios regionais ficam liberados para apoiar quem julgarem mais conveniente. É aí que o discurso nacional se esvazia.

Caiado, pela trajetória consolidada e pela fase da vida política em que se encontra, pouco arrisca ao colocar o nome na vitrine presidencial. Já Ratinho Júnior e Eduardo Leite teriam muito mais a perder ao embarcar numa candidatura sem unidade partidária real. Como sustentar um projeto nacional se, em colégios eleitorais estratégicos, o próprio partido estará em outro palanque?

O caso da Bahia é emblemático. Lá, o PSD é comandado pelo senador Otto Alencar, aliado histórico do PT. O partido integra a base do governador Jerônimo Rodrigues e está comprometido com a reeleição do grupo petista no Estado, além de apoiar nomes ligados diretamente ao núcleo duro do governo Lula, como Jacques Wagner e Rui Costa. É impensável imaginar o PSD baiano engajado numa campanha presidencial que faça oposição frontal ao Planalto.

O mesmo raciocínio se aplica ao Rio de Janeiro. Sob a liderança de Eduardo Paes, o PSD fluminense mantém alinhamento com o campo lulista. Estamos falando do terceiro e do quarto maiores colégios eleitorais do país — Rio e Bahia — onde o partido, na prática, estará ao lado de Lula em 2026, independentemente de eventual candidatura própria em nível nacional.

Essa é a contradição central. O PSD se orgulha de ser uma das maiores forças políticas do Brasil, com grande número de prefeitos, presença robusta no Congresso e protagonismo entre governadores. Ainda assim, carece de identidade programática e coesão estratégica. Funciona mais como uma confederação de interesses regionais do que como um partido nacional com projeto claro de poder.

Nesse contexto, a movimentação de Kassab não soa como construção de uma alternativa presidencial consistente, mas como posicionamento tático para maximizar espaços de negociação, seja qual for o desfecho da disputa. O PSD mantém três nomes no balcão, testa cenários, ocupa o debate — mas preserva, acima de tudo, a liberdade de estar com todos, ao mesmo tempo.

É menos sobre disputar a Presidência e mais sobre garantir presença no governo que sair vencedor.

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