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Papa Leão XIV e a Inteligência Artificial: fé e modernidade

  Vilmar Dal Bó

 

Em visita pastoral à Espanha, em junho de 2026, o Papa Leão XIV exortou as lideranças religiosas a não enxergarem a religiosidade e a fé como um “museu do passado” a ser visitado, mas como uma “escola de fé” viva e atuante, capaz de ensinar as pessoas a se ajoelharem diante de Deus e a não desprezarem o próximo.

A fala de Leão XIV reforça sua preocupação em olhar para o futuro a partir da realidade presente. Sua postura recorda a de um de seus antecessores, o Papa Leão XIII (1878–1903), que enfrentou os desafios trazidos pela industrialização, pela mecanização das atividades fabris e pela transição de uma sociedade baseada no trabalho artesanal para outra marcada pela produção em série, fenômenos característicos da Revolução Industrial.

Hoje, pode-se dizer que o Espírito Santo suscita um novo Leão para enfrentar uma nova revolução: a revolução cibernética. Nela, dados e algoritmos modelam comportamentos sociais e influenciam profundamente a vida econômica, política, cultural e ambiental. Mais uma vez, as relações socioeconômicas são transformadas, agora mediadas por novas formas de poder, muitas vezes invisíveis e anônimas.

Diante de uma sociedade imersa em uma realidade tecnológica da qual é difícil retroceder, e diante da expansão acelerada da Inteligência Artificial, o Papa Leão XIV publica sua primeira encíclica social, intitulada Magnifica Humanitas (“A Magnífica Humanidade”). Nela, desenvolve princípios da fé cristã aplicados aos desafios sociais decorrentes da Inteligência Artificial.

Entre os pontos centrais da encíclica, destaca-se a afirmação de que nenhuma máquina pode substituir o ser humano. A dignidade fundamental da pessoa encontra sua origem no fato de sermos “filhos no Filho” de Deus, realidade que nenhum algoritmo é capaz de apagar.

O Papa também propõe uma escolha simbólica entre Babel e Jerusalém. Babel, teologicamente, representa o orgulho, a vaidade, a fragmentação e os desencontros humanos; Jerusalém, ao contrário, simboliza a comunhão, a fraternidade e a construção de uma sociedade fundada no encontro.

Outro aspecto relevante é a compreensão dos dados como um bem comum. Eles não devem ficar concentrados nas mãos de grupos movidos por interesses exclusivos ou particulares, mas precisam estar a serviço do bem de toda a humanidade.

A encíclica alerta ainda para o risco de que a Inteligência Artificial gere novas formas de escravidão, por meio da dependência digital, do desemprego estrutural, da vigilância excessiva e do controle social. A tecnologia deve servir à pessoa humana, e não submetê-la.

Por fim, Leão XIV recorda que a Inteligência Artificial é fruto da extraordinária criatividade humana. Ela manifesta a capacidade que Deus concedeu ao ser humano de participar da obra da criação. A pessoa humana é chamada a ser construtora, e não mera espectadora, da história. Dignidade e sacralidade caminham juntas, iluminando o uso ético da tecnologia e orientando seu desenvolvimento para a promoção do bem comum.

 

Vilmar Dal Bó, Doutor e mestre em Ciências Econômicas e Política e pós-doutor em antropologia cultural e desenvolvimento local.

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