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Quem vai controlar os novos trilhos do dinheiro? A disputa global pela tokenização.

 

Charles M. machado Consultor Jurídico em Direito tributário e Mercado de Capitais no Brasil e no exterior.

O mercado financeiro global está atravessando uma mudança estrutural silenciosa, mas profunda. Depois de anos em que o sistema bancário tradicional e o universo cripto pareciam ocupar campos opostos, a realidade de 2026 aponta para uma direção mais pragmática: a tecnologia blockchain não está substituindo Wall Street, mas sendo progressivamente incorporada ao seu próprio sistema operacional.

Durante a primeira fase da indústria cripto, a narrativa dominante era de ruptura. Bitcoin, Ethereum, stablecoins e protocolos descentralizados surgiram como alternativas ao modelo financeiro centralizado, frequentemente associados à ideia de desintermediação total. Do outro lado, bancos, reguladores e grandes gestoras enxergavam o setor com desconfiança, relacionando-o a volatilidade, ausência de supervisão, riscos de custódia e fragilidades de compliance.

Esse cenário mudou. A partir da entrada de grandes instituições financeiras no mercado de ativos digitais, especialmente por meio de ETFs, fundos tokenizados, stablecoins reguladas e projetos de infraestrutura, a fronteira entre finanças tradicionais e Web3 começou a se tornar menos ideológica e mais operacional.

O centro dessa transformação é a tokenização de ativos do mundo real, conhecida pela sigla RWA, Real World Assets. Trata-se da representação digital, em blockchain ou infraestrutura de registro distribuído, de ativos como títulos públicos, ações, cotas de fundos, recebíveis, crédito privado, imóveis, commodities e instrumentos financeiros tradicionais.

A grande promessa não está apenas em “criar tokens”. Está em redesenhar a forma como ativos são emitidos, custodiados, transferidos, liquidados, utilizados como garantia e integrados a mercados globais.

A principal mudança em curso é a passagem da criptoeconomia como ambiente predominantemente especulativo para uma camada de infraestrutura financeira. O mercado deixa de olhar apenas para moedas digitais voláteis e passa a observar a blockchain como tecnologia capaz de reduzir fricções históricas do sistema financeiro: liquidações demoradas, bases de dados fragmentadas, excesso de intermediários, alto custo operacional e baixa interoperabilidade entre mercados.

Hoje, a discussão central não é mais se bancos usarão blockchain, mas como, com quais limites regulatórios, sob quais padrões de governança e em que escala.

O movimento ganhou relevância institucional com o avanço da DTCC — Depository Trust & Clearing Corporation, uma das principais infraestruturas de pós-negociação do mundo. Em dezembro de 2025, sua subsidiária DTC recebeu da SEC uma carta de não ação autorizando, por três anos, um serviço definido de tokenização para participantes da DTC e seus clientes, em blockchains previamente aprovadas. A autorização alcança ativos líquidos como componentes do Russell 1000, ETFs de grandes índices e títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

A própria DTCC informou que pretende iniciar o lançamento do serviço no segundo semestre de 2026, em ambiente controlado de produção. O ponto relevante é que os ativos tokenizados devem preservar os mesmos direitos, proteções ao investidor e características de titularidade do ativo tradicional correspondente.

Isso altera a natureza do debate. A tokenização deixa de ser uma experiência marginal de startups cripto e passa a ser testada dentro da infraestrutura que sustenta parte relevante dos mercados de capitais.

A iniciativa da DTCC é importante por três razões:

A primeira é regulatória. A carta de não ação da SEC não representa uma liberação ampla e irrestrita do mercado, mas cria um espaço institucional delimitado para testar tokenização com controles, participantes autorizados, carteiras registradas e blockchains aprovadas. A documentação da SEC descreve que os participantes deverão registrar endereços em blockchain para manter tokens correspondentes a direitos sobre valores mobiliários custodiados pela DTC.

A segunda razão é operacional. O modelo não abandona a estrutura tradicional de custódia e liquidação. Ao contrário, ele cria uma camada tokenizada sobre ativos mantidos dentro da própria infraestrutura da DTC. Isso permite testar benefícios de blockchain — mobilidade, programabilidade e transferência direta entre carteiras registradas — sem retirar o ativo do perímetro institucional.

A terceira razão é política e econômica. Quando uma infraestrutura dessa escala avança para tokenização, o sinal para bancos, corretoras, gestoras, reguladores e investidores institucionais é claro: o debate deixou de ser sobre criptoativos isolados e passou a envolver a arquitetura futura dos mercados de capitais.

Apesar do entusiasmo, é importante separar realidade atual de projeção futura.

O mercado de RWAs tokenizados ainda é pequeno quando comparado ao tamanho do sistema financeiro global. Dados do RWA.xyz indicam cerca de US$ 26,7 bilhões em valor distribuído de ativos tokenizados, aproximadamente US$ 345 bilhões em valor representado, cerca de 698 mil detentores de ativos e quase US$ 299 bilhões em stablecoins, dependendo da metodologia de classificação utilizada.  Esses números mostram duas coisas ao mesmo tempo: a tokenização já saiu do laboratório, mas ainda está em fase inicial diante dos trilhões de dólares negociados em títulos públicos, ações, crédito privado e fundos ao redor do mundo.

As projeções, no entanto, explicam por que grandes instituições estão se posicionando agora. A McKinsey estima que a tokenização de ativos financeiros pode alcançar escala relevante até 2030, com forte crescimento nos primeiros ciclos de adoção. O estudo destaca que os primeiros emissores e participantes podem capturar vantagens importantes, como eficiência operacional, definição de padrões e ganho reputacional.

A divergência entre estimativas é natural. Alguns relatórios incluem apenas ativos financeiros tokenizados; outros consideram stablecoins, moedas digitais de bancos centrais, trade finance, imóveis, crédito privado ou fundos. Ainda assim, a direção é comum: o mercado enxerga a tokenização como uma das principais infraestruturas da próxima década.

A tokenização interessa às instituições tradicionais porque promete ganhos econômicos concretos.

Em primeiro lugar, há o tema da liquidação. Mercados tradicionais ainda dependem, em muitos casos, de ciclos que levam dias para completar transferência, compensação e liquidação. Em uma economia digital, esse intervalo representa custo de capital, risco de contraparte e imobilização de garantias.

Em segundo lugar, há a eficiência de capital. Ativos tokenizados podem, em tese, circular com maior velocidade, ser utilizados como garantia em diferentes ambientes e permitir novas formas de composição entre instrumentos financeiros. Isso não elimina riscos, mas pode reduzir o volume de capital parado em estruturas operacionais ineficientes.

Em terceiro lugar, há a programabilidade. Ativos financeiros podem incorporar regras automatizadas, como restrições de transferência, pagamentos condicionais, distribuição de rendimentos, verificação de elegibilidade e controles de compliance. A própria documentação relacionada ao serviço da DTC menciona o uso de carteiras registradas, blockchains aprovadas e protocolos conscientes de compliance.

Em quarto lugar, há a interoperabilidade. Um dos grandes desafios do mercado financeiro global é a fragmentação entre sistemas, jurisdições, custodiantes, bolsas, câmaras de liquidação e plataformas de negociação. A blockchain oferece uma linguagem tecnológica comum, ainda que sua adoção em escala dependa de padrões jurídicos, regulatórios e operacionais.

A convergência, contudo, não é unilateral. A Web3 também precisa das instituições tradicionais.

Para atrair trilhões de dólares institucionais, não basta oferecer velocidade, descentralização ou interfaces digitais. É necessário entregar segurança jurídica, custódia robusta, controles de prevenção à lavagem de dinheiro, segregação patrimonial, governança, auditoria, resiliência operacional e clareza sobre direitos dos investidores.

Esse é o ponto de maturidade do setor. A Web3 que pretende operar com ativos financeiros reais não pode funcionar com a mesma lógica de ambientes puramente especulativos. O investidor institucional exige previsibilidade. O regulador exige rastreabilidade. O mercado exige liquidez. E o sistema financeiro exige responsabilidade sistêmica.

Por isso, a nova fase da tokenização será menos marcada por plataformas isoladas e mais por consórcios, parcerias e infraestruturas híbridas. Bancos e gestoras trazem capital, clientes, regulação e confiança. Empresas nativas de blockchain trazem tecnologia, agilidade, interoperabilidade e novos modelos de liquidação.

A tokenização também tem uma dimensão política.

O controle sobre a infraestrutura financeira sempre foi uma questão de poder. Quem controla os trilhos de pagamento, custódia, liquidação e registro controla parte relevante da circulação do capital. A digitalização desses trilhos cria uma disputa entre bancos, bolsas, plataformas cripto, big techs, reguladores e bancos centrais.

Para governos, o tema envolve soberania monetária, fiscalização tributária, combate à lavagem de dinheiro, proteção ao investidor e estabilidade financeira. Para o setor privado, envolve redução de custos, novos produtos, expansão de mercado e captura de eficiência. Para investidores, pode significar acesso mais amplo, liquidação mais rápida e novas formas de diversificação patrimonial.

Mas há riscos. A tokenização pode ampliar a concentração de mercado caso apenas grandes instituições consigam cumprir os requisitos regulatórios e tecnológicos. Pode criar novas dependências de infraestrutura privada. Pode também gerar desafios de supervisão quando ativos circulam entre jurisdições, blockchains e intermediários distintos.

Portanto, a pergunta central não é se a tokenização será relevante. A pergunta é quem definirá seus padrões.

Para o Brasil, a discussão é estratégica.

O país já possui um sistema financeiro altamente digitalizado, com ampla adoção de pagamentos instantâneos, agenda de open finance, modernização regulatória e crescente interesse por ativos digitais. Nesse contexto, a tokenização pode afetar fundos de investimento, recebíveis, crédito privado, mercado imobiliário, precatórios, agronegócio, carbono, instrumentos de dívida e estruturas de financiamento empresarial.

O desafio brasileiro será equilibrar inovação e segurança. A tokenização pode reduzir custos de emissão, ampliar acesso ao mercado de capitais e criar liquidez para ativos tradicionalmente ilíquidos. Mas também exigirá regras claras sobre custódia, escrituração, responsabilidade dos intermediários, tributação, prevenção à lavagem de dinheiro e proteção de investidores de varejo.

Em outras palavras, a tokenização pode democratizar o acesso a ativos antes restritos, mas também pode sofisticar riscos que o investidor comum nem sempre consegue compreender.

A principal inovação de 2026 não está apenas no lançamento de novos tokens. Está na institucionalização da blockchain como infraestrutura de mercado.

A entrada de entidades como a DTCC no campo da tokenização mostra que Wall Street não está simplesmente aderindo ao universo cripto. Está selecionando, regulando e incorporando os elementos mais eficientes da Web3 para modernizar sua própria engrenagem.

Ao mesmo tempo, a Web3 está sendo obrigada a amadurecer. O mercado institucional não aceitará improviso operacional, fragilidade jurídica ou ausência de controles. A próxima fase será vencida por quem conseguir unir tecnologia nativa, compliance, segurança, liquidez e legitimidade regulatória.

A tokenização, portanto, não representa apenas uma inovação financeira. Representa uma disputa pela arquitetura do dinheiro, dos ativos e da confiança no século XXI, logo o futuro do mercado financeiro provavelmente não será puramente descentralizado, nem integralmente tradicional. Será híbrido.

E quem controlar essa ponte entre instituições e blockchain terá uma posição central na próxima etapa da economia global.

 

 

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