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Manchete

Recado por linhas tortas

A divulgação do telefonema do vereador carioca Carlos Bolsonaro ao prefeito de Chapecó, João Rodrigues, expõe de forma cristalina um traço recorrente do método político do clã liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro: a preferência por movimentos laterais, recados indiretos e pressões públicas como instrumento de negociação.

A ligação, supostamente estimulada após encontro familiar em Brasília, não teve o peso institucional de uma articulação formal. Foi, sobretudo, um gesto político — e, como tal, precisa ser lido: menos como tentativa real de aliança e mais como sinalização de descontentamento e demonstração de força.

No ambiente catarinense, onde a montagem das chapas ainda passa por ajustes finos, o episódio acabou amplificando tensões que já estavam latentes.

Método

O telefonema ilustra um padrão. Em vez de tratativas orgânicas dentro das estruturas partidárias, a família Bolsonaro frequentemente opera por movimentos abruptos, que reconfiguram cenários de maneira súbita e expõem aliados a constrangimentos públicos.

A política deixa de ser apenas negociação e passa a incorporar elementos de pressão midiática e personalização extrema.

Recado

No contexto local, a leitura predominante é que a conversa teve destinatário claro: o governador Jorginho Mello.

Ao procurar João Rodrigues, Carlos sinaliza insatisfação com a condução das definições eleitorais, especialmente no entorno da disputa ao Senado — onde nomes como Carol De Toni e Esperidião Amin já orbitavam como peças de um arranjo em construção.

Desorganização

A eventual transferência de Carlos para Santa Catarina embaralha uma engenharia que vinha sendo montada com relativa previsibilidade.

Mais do que disputar espaço, o movimento cria um ambiente de incerteza permanente — cenário em que aliados passam a recalcular posições e onde a coordenação política se torna mais onerosa.

Uso político

João Rodrigues surge nesse enredo menos como parceiro estratégico e mais como instrumento circunstancial.

O entusiasmo inicial não altera o fato de que o gesto serviu primordialmente como canal de pressão, típico de disputas internas em fases preliminares.

Estilo

A crítica central recai sobre o padrão de atuação: decisões personalistas, comunicação por atalhos e baixa previsibilidade.

Em contraste, a política tradicional — com seus ritos e negociações graduais — acaba tensionada por uma lógica que privilegia impacto imediato, ainda que ao custo de ruídos entre aliados.

Volatilidade

No balanço, o episódio reforça que a disputa eleitoral em Santa Catarina não será marcada apenas por programas e alianças formais, mas também por movimentos táticos de alta volatilidade.

E, nesse terreno, a presença de Carlos Bolsonaro tende a garantir visibilidade constante — nem sempre acompanhada de estabilidade política.

Definitivamente, o modus operandi da família é disruptivo, marcado por confrontos sucessivos e baixa previsibilidade. Trata-se de um estilo que impõe pressão permanente sobre aliados e adversários e que, ao longo do tempo, cobra um preço político relevante nas relações de confiança e lealdade.

foto>Breno Ezaki, Metrópoles

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