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Um Ano sem o Papa Francisco: Ruptura e Continuidade

 

Por: Vilmar Dal Bó

Em 21 de abril de 2025, o mundo recebeu a notícia do falecimento do Papa
Francisco. O argentino Jorge Mario Bergoglio — o papa latino — escolheu para si o
nome Francisco, inspirado em São Francisco de Assis, que daria a tônica de seu
pontificado. Há registros de que o papa Paulo VI teria afirmado que dificilmente um
pontífice adotaria esse nome, dada a agenda, os compromissos de Estado e a
opulência que orbitam em torno do papado.
Mas Bergoglio, contrariando essa lógica, inspirado em Francisco de Assis,
tornou-se o Francisco de Roma. A escolha do nome não foi algo “pro forma”, uma
simples homenagem a um dos santos mais universais, mas sim um compromisso que
orientaria práticas e gestos concretos ao longo de seu pontificado.
Para que o nome Francisco não fosse apenas uma alegoria de simpatia
universal, inaugurou um período marcado por gestos fortes: um estilo de vida sóbrio; a
preocupação com o meio ambiente e com um desenvolvimento sustentável e integral;
a atenção às periferias urbanas e existenciais; e o cuidado com os lentos e os frágeis,
que também têm o direito de “singrar” na vida.
Insistia em uma Igreja em saída, em movimento, em estado permanente de
missão — o que o levava a dirigir o olhar para além dos muros de Roma. Com
frequência, encontrava-se e sentava-se à mesa com pessoas em situação de
vulnerabilidade. Transformou o Vaticano em um “refeitório” acolhedor, simbolizando
a atenção aos mais pobres e o ideal de uma Igreja pobre para os pobres.
Em 2017, no centro Gente de Paz, em Roma (Via San Gallicano, 25, próximo ao
Trastevere), inaugurou a “Lavanderia do Papa Francisco”, um serviço gratuito voltado a
pessoas em situação de rua e de baixa renda. O espaço oferece máquinas de lavar,
secadoras, ferros de passar, além de chuveiros e barbearia. Chegava à conclusão de
que, em Roma, havia uma igreja a cada esquina, mas faltavam restaurantes e
lavanderias para os mais pobres.

E tudo isso não era feito em nome de uma agenda política ou ideológica, como
sustentavam algumas correntes mais resistentes ao seu pontificado. Para desacreditá-
lo, chegaram a chamá-lo de marxista. Francisco, no entanto, acolhia tais críticas com
misericórdia e renovava seu testemunho de fidelidade à inspiração de sua eclesiologia:
São Francisco.
Foi o papa que insistiu no princípio da misericórdia, pois reconhecia precisar
dela diariamente. Aqueles que lhe atribuíram falta de conteúdo doutrinal pareciam
desconhecer a Declaração de San Miguel (1969), marco da teologia argentina e latino-
americana, bem como a teologia del pueblo, a filosofia da polaridade e a teoria da
oposição polar. Francisco foi fortemente influenciado pelo filósofo e teólogo Romano
Guardini — referência ignorada por muitos de seus críticos.
Após um ano de seu falecimento, coube ao papa Leão XIV dar continuidade ao
caminho iniciado por Francisco, evidentemente com suas próprias intuições, o carisma
de sua tradição agostiniana e a atualização do legado de Leão XIII — tudo marcado por
“ruptura e continuidade”.
Contudo, o novo pontífice já sente as primeiras resistências dos “poderosos
deste mundo”, incomodados com a verdade evangélica. Algumas dessas vozes se
assemelham àquelas que antes rejeitavam os ensinamentos de Francisco.
Recentemente, uma delas chegou a sugerir que o papa deveria ter “cuidado” ao
discutir teologia — como se pretendesse ensinar um agostiniano a fazer hermenêutica,
ao papa a exercer o magistério e ao padre a celebrar a missa.
Um ano sem Francisco revela a saudade que permanece e os desafios que
persistem. É, de fato, um tempo de ‘ruptura e continuidade’: ruptura de um período
que inaugura o novo; continuidade nas vozes que se levantam contra o discernimento
evangélico.

VILMAR DAL BÓ é doutor e mestre em Ciências Econômicas e Políticas e pós-
doutor em Desenvolvimento Local.

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