Blog do Prisco
Manchete

A direita precisa de liderança, não de uma família em permanente confusão

É possível questionar os excessos do Judiciário e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade da família Bolsonaro. Uma coisa não elimina a outra.

Os conservadores não precisam escolher entre a complacência com decisões judiciais e a submissão às conveniências familiares. Precisam de instituições imparciais e lideranças capazes de enfrentar dificuldades com equilíbrio, firmeza e responsabilidade.

A toga também responde

Alexandre de Moraes não está acima do escrutínio público. Suas decisões exigem fundamentação, proporcionalidade e respeito às garantias individuais.

Questionamentos sobre sua atuação precisam receber respostas. O Supremo não pode exigir confiança incondicional enquanto trata cobranças como afrontas.

Uma Corte se fortalece pela coerência. A toga não transforma ninguém em autoridade moral incontestável.

Comando ausente

Edson Fachin precisa exercer a presidência do Supremo com autoridade institucional. Não basta administrar cerimônias enquanto decisões individuais aprofundam conflitos e alimentam a percepção de desordem.

A sociedade precisa compreender os critérios da Corte. Quem pode decidir o quê? Quais são os limites? Como se resolvem os conflitos?

Presidir exige mais do que ocupar a cadeira. Exige comandar, organizar e prestar esclarecimentos.

Uma família atrapalhada

Nada disso obriga a direita a fechar os olhos para a família Bolsonaro. Atrapalhada, enrolada e confusa, frequentemente cria dificuldades que depois exige que seus apoiadores defendam.

As manifestações de Eduardo sobre uma eventual saída do irmão do país foram um exemplo de irresponsabilidade política.

Não se pode transformar cada declaração familiar numa crise e esperar que milhões de eleitores permaneçam mobilizados para apagar incêndios.

Quase 60 milhões

Flávio recebeu quase 60 milhões de votos. É um patrimônio eleitoral gigantesco. Não pertence exclusivamente a ele, ao pai ou aos irmãos.

São brasileiros que escolheram uma candidatura e esperam representação depois da derrota. Esperam oposição, fiscalização e presença.

O fato de buscar refúgio nos Estados Unidos para escapar do enfrentamento político e judicial, o submete a uma inevitável cobrança: onde está a altivez? Onde está a responsabilidade com quem acreditou no projeto?

Retirada tem preço

A retirada nessas condições também caracteriza um apequenamento político. Não significaria perder automaticamente metade dos eleitores — ninguém tem como medir isso agora —, mas colocaria em risco a confiança construída na campanha.

Quem se apresentou para governar o país precisa explicar como pretende representar seus apoiadores na adversidade.

O receio de perseguição pode ser discutido e enfrentado juridicamente. Não pode funcionar como explicação para qualquer decisão pessoal. Por mais que o componente de proteger a família (mulher e filhas) seja compreensível, quando qualquer cidadão abraça a vida pública, sabe das implicações e dos ônus para o exercício pleno desta função.

Afinal, o segundo filho abandona o pai, condenado injustamente, por um magistrado sem estatura moral e longe de ser imparcial.

Sem direito hereditário

De outra parte, é fundamental ponderar que alguns setores de direita precisam abandonar a ideia de que sua liderança é um patrimônio hereditário. O eleitor conservador não assinou procuração vitalícia para uma prole especificamente.

Bolsonaro teve importância na reorganização desse campo. Isso não concede aos filhos preferência permanente sobre todas as outras lideranças.

Prestígio precisa ser acompanhado de preparo. Sobrenome abre portas, mas não substitui consistência, capacidade de articulação ou responsabilidade política.

Tarcísio ganha espaço

Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge com condições de ampliar seu protagonismo. Tem governo, estrutura administrativa, visibilidade e interlocução com diferentes setores.

Flávio, sem mandato a partir de 2027, já precisaria construir sua posição. Não receberia automaticamente o comando da oposição por ter disputado a Presidência. Antes de embarcar para o exterior, seguramente raciocinou nesta direção.

Liderança se exerce. Não se proclama por sobrenome nem se reserva em reunião familiar.

Um novo caminho

O dado político é suficiente: a derrota abriu uma disputa pela liderança conservadora.

A direita precisa de alternativas mais viáveis, equilibradas e preparadas. Precisa defender garantias, enfrentar abusos e apresentar um projeto de país.

Os milhões de brasileiros que votaram contra o PT merecem muito mais do que acompanhar o próximo capítulo das confusões da família Bolsonaro.