Há forças que não podem ser medidas por exames, estatísticas ou instrumentos científicos. Uma delas é a fé. Fé na vida, na natureza, no ser humano e na possibilidade de recomeçar. Fé, inclusive, naquele que muitos chamam de Deus, outros de Criador, Jeová, Ser Supremo, Pai e outros, de Grande Arquiteto do Universo.
Independentemente de religião, ideologia, denominação ou forma de culto, acreditar que existe algo maior, “acima” de nós, que pode ser uma poderosa fonte de equilíbrio. E, quando falamos de prevenção às drogas, esse aspecto não pode ser desconsiderado.
A dependência química não destrói apenas o corpo. Ela normalmente rompe vínculos familiares, enfraquece valores, provoca isolamento e rouba do indivíduo a perspectiva de futuro. Por isso, quando alguém encontra na fé um motivo para continuar, uma razão para resistir e esperança para reconstruir sua história, surge uma importante ferramenta de prevenção e provável recuperação.
Ter fé não significa fechar os olhos para a realidade. Ao contrário. Significa acreditar que, mesmo diante das maiores dificuldades, existe a possibilidade de mudança.
Para crianças, adolescentes e jovens, a espiritualidade pode oferecer referências, valores, valorização, potencialização de valores, pertencimento e propósito. Pode ensinar que a vida possui significado e que não é necessário buscar nas drogas uma falsa sensação de prazer, coragem, liberdade ou pertencimento.
E, para quem já enfrentou a dependência, a fé pode ser ainda mais importante. Depois de um tratamento, quando o indivíduo retorna à sociedade e precisa enfrentar novamente as dificuldades, tentações e antigas amizades, acreditar em alguma coisa maior ajuda a permanecer firme no caminho escolhido.
É nesse contexto que as igrejas e comunidades religiosas exercem papel social fundamental. Muitas acolhem famílias, visitam pessoas em sofrimento, mantêm grupos de apoio, encaminham dependentes para tratamento, trabalham na recuperação de vínculos e, sobretudo, oferecem algo que muitas vezes falta justamente nos momentos de maior fragilidade: esperança.
Também merece destaque o trabalho histórico das tradicionais comunidades terapêuticas vinculadas, especialmente às entidades religiosas, que há décadas acolhem pessoas em situação de dependência, oferecendo disciplina, convivência, espiritualidade, trabalho, responsabilidade e, sobretudo, uma oportunidade de reconstrução da própria vida.
Ao lado das comunidades terapêuticas, iniciativas como a Pastoral da Sobriedade, Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos, Amor Exigente, diversos grupos de mútua ajuda, movimentos de jovens (escotismo, ordem demolay, desbravadores, juventude evangélica, etc), encontros de famílias (shalom, etc), clubes de serviço (rotary, lions, etc), retiros e tantos outros projetos apoiados pelas diferentes tradições religiosas e filosóficas, cumprem uma função social que não pode ser desprezada, pelo contrário, deve ser valorizada e incentivada. São espaços que ajudam a ocupar o tempo com atividades saudáveis, esporte, cultura, fortalecem vínculos, estimulam valores e oferecem aos jovens alternativas concretas ao mundo das drogas.
Muitas vezes, antes mesmo de qualquer contato com o sistema formal de saúde ou de assistência social, é dentro de uma igreja, de uma comunidade ou de um grupo de jovens que alguém encontra uma palavra de orientação, uma mão estendida ou simplesmente uma razão para não desistir.
Não se trata de afirmar que a fé substitui tratamento médico, psicológico, social ou terapêutico. Não substitui. A dependência química exige abordagem séria, profissional e multidisciplinar. Mas também seria um erro acreditar que a dimensão espiritual deve ser completamente afastada desse processo.
O ser humano não é apenas corpo. É também mente, sentimentos, relações, sonhos e valores.
Precisamos, portanto, superar preconceitos. O combate às drogas não deve ser responsabilidade exclusiva do Estado, da polícia, da saúde, assistência social ou das famílias. É uma tarefa coletiva. E as igrejas, os templos, independentemente de suas denominações, podem ser importantes parceiras nessa caminhada.
A fé pode não impedir todas as quedas. Mas pode oferecer uma mão permanente para levantar.
Pode não resolver todos os problemas. Mas pode ensinar que eles podem ser enfrentados e tem soluções.
E pode não garantir uma vida sem dificuldades, pois as dificuldades estão aí para todos nós. Porém, para muitos, oferece a certeza íntima de que a vida vale a pena.
No combate às drogas, talvez uma das maiores batalhas seja justamente esta: fazer com que nossos jovens acreditem no futuro antes que alguém lhes ofereça uma falsa esperança através das drogas.
Fé é acreditar que sempre existe um caminho. E, muitas vezes, é justamente essa crença que nos mantém longe do abismo.
Fernando Henrique da Silveira
• Presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes de Santa Catarina – CONEN;
• Advogado, jornalista e radialista;
• Pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal;
• Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais;
• Membro Consultivo da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB/ SC.







