Gelson Merisio vem chamando a atenção pela estratégia adotada neste começo dele na pré-campanha nas redes sociais. Ele acerta em dois pontos centrais: forma e timing político. A produção é eficiente, a edição é dinâmica e a narrativa foi construída com inteligência política. Mais do que um ataque, o conteúdo tenta consolidar uma reposição de imagem. E isso faz diferença no ambiente atual.
Merisio escolheu um caminho diferente daquele adotado por João Rodrigues na pré-disputa ao governo de Santa Catarina. Enquanto João personaliza o confronto mirando diretamente o governador Jorginho Mello, Merisio procura trabalhar conceitos, comportamento e contexto político nacional (o vídeo abaixo ilustra muito bem essa realidade).
Na peça, ele explora imagens e episódios envolvendo Jair Bolsonaro durante a pandemia, além do discurso recorrente de que Santa Catarina recebeu pouco retorno institucional mesmo entregando votações históricas ao ex-presidente. Trata-se de uma crítica que encontra eco em parte do eleitorado moderado sem necessariamente mergulhar no radicalismo ideológico.
SERENIDADE E ASSERTIVIDADE
A diferença estratégica aparece justamente aí. Merisio não atua no campo da irritação permanente. Não faz um discurso colérico. Busca uma crítica racionalizada, equilibrada e com aparência de coerência argumentativa. E, ao antecipar a cobrança sobre sua mudança de posição política — já que apoiou Bolsonaro em 2018 e agora atua na linha de frente do campo lulista — ele tenta neutralizar previamente a principal linha de ataque adversária.
Na prática, sua mensagem é simples: “Votei, apoiei e mudei”. Ao admitir a mudança e explicar as razões, ele desarma parte da exploração política futura. É uma operação clássica de comunicação preventiva.
Já João Rodrigues mantém uma linha mais personalista. Seu discurso tem sido baseado na contraposição direta ao governo estadual, muitas vezes centrado no argumento de que faria diferente do atual governo ou realizaria aquilo que considera não entregue por Jorginho Mello. O problema dessa estratégia é que ela ainda não conseguiu consolidar um eixo programático claro nem uma identidade ideológica suficientemente organizada. Até porque não tem propostas claras.
Esse contraste pode produzir efeito eleitoral importante. Embora Merisio esteja situado à esquerda, seu discurso mira justamente o eleitorado de centro — especialmente aquele descontente, mas não radicalizado. E aí surge o ponto mais sensível para João Rodrigues: os dois disputam espaços políticos que interagem sob o aspecto regional.
Chapecó e Xanxerê pertencem ao mesmo grande ambiente político do Oeste catarinense. Ambos já circularam pelas mesmas estruturas partidárias e conhecem profundamente aquele eleitorado. Nesse cenário, Merisio pode acabar drenando votos que naturalmente migrariam para João, mais do que diretamente para Jorginho.
O governador, hoje, permanece ancorado em um eleitorado de direita mais consolidado e identificado ideologicamente. João tenta ocupar um espaço intermediário: flerta com a direita, mas procura manter discurso mais amplo. O resultado é uma dificuldade de posicionamento que seus adversários começam a explorar. Na verdade, João mais parece uma biruta de aeroporto. Uma hora é bolsonarista, depois está com Caiado, não queria o MDB, agora está com parte do MDB e por aí vai.
No fundo, a movimentação de Merisio revela compreensão tática do tabuleiro: menos confronto pessoal, mais narrativa; menos agressividade, mais construção de discurso; menos reação emocional, mais inteligência política. E, numa eleição cada vez mais marcada por percepção, comunicação digital e ocupação de espaços simbólicos, isso pode ter peso relevante no jogo de 2026 em Santa Catarina. Por fim, enquanto Merisio critica Bolsonaro, mas com inteligência, João não tem uma linha clara também do ponto de vista seu posicionamento envolvendo a disputa presidencial.







