Que Florianópolis se tornou um destino favorável à inovação, às startupse às tecnologias limpas não é novidade. A cidade reúne paisagens exuberantes e índices de qualidade de vida que continuam atraindo pessoas de diferentes lugares. Mas não é apenas isso que encanta os manezinhos raiz e aqueles que escolheram a cidade para viver.
Florianópolis tem arquitetura, sotaques, sabores e ritmos que a tornam singular. É uma cidade que carrega marcas de diferentes povos e culturas e que, ao mesmo tempo em que olha para o futuro, preserva manifestações que ajudam a contar sua história.
É claro que, como toda grande cidade, enfrenta problemas públicos e desafios de infraestrutura. Afinal, estamos falando de uma ilha, que ao longo do tempo se transformou em um destino sonhado por muitos.
Mas há algo que talvez seja ainda mais importante para compreender a alma de Florianópolis: sua cultura popular.
Entre tantas manifestações, uma das mais genuinamente ilhéus é a brincadeira do Boi de Mamão. Ela atravessa gerações e continua encantando crianças, jovens, adultos e idosos.
Está nas escolas, nos parques públicos, nas festas juninas, nas festas do Divino e nas celebrações comunitárias. Dos lugares mais gourmet aos bairros mais periféricos, o Boi de Mamão continua presente.
Seus personagens — o boi, o cavalinho, as cabras, os ursos, os macacos, a Bernunça e a Maricota —, acompanhados de cantorias, brincadeiras, bruxas e benzedeiras, sintetizam parte importante do imaginário e do folclore ilhéu.É uma manifestação que mistura culturas, preserva memórias e reinventa tradições. Um patrimônio cultural imaterial que pertence não apenas a quem nasceu na Ilha, mas também a todos aqueles que escolheram Florianópolis para viver.
Não por acaso, há quem diga que o Boi de Mamão é a “Disney do manezinho”. A comparação pode parecer curiosa, mas traduz bem a capacidade que essa brincadeira tem de criar encantamento e reunir diferentes gerações em torno de uma experiência genuinamente local.
A importância dessa manifestação também é reconhecida pelo poder público. O dia 20 de agosto foi instituído por lei municipal como o Dia do Boi de Mamão, uma iniciativa que contribui para sua preservação, valorização e divulgação.
Nos últimos tempos houve uma força tarefa para dar visibilidadeà existência de inúmeros grupos que mantêm essa tradição viva nos bairros da cidade.
São grupos formados, muitas vezes, por familiares, amigos e vizinhos que se reúnem espontaneamente. Não há grandes estruturas, grandes investimentos ou interesses comerciais. Há, sobretudo, vontade de brincar, de estar junto e de transmitir às novas gerações aquilo que receberam das gerações anteriores.
Isso ganha ainda mais significado em uma sociedade marcada pela velocidade, pelo individualismo e pela presença cada vez maior das telas. Em tempos em que muitas relações acontecem por meio de dispositivos digitais, o Boi de Mamão propõe algo simples e poderoso: pessoas reunidas presencialmente para cantar, brincar, dançar e celebrar.
E resistir não significa fechar-se.
Os grupos de Boi de Mamão mostram justamente o contrário. Eles acolhem aqueles que chegam, incorporam novas pessoas e permitem que a tradição continue se transformando. São, por isso, cultura em movimento.
Foi esse espírito que o Grupo Folclórico Brinca Meu Boi, do bairro Pantanal, levou para fora de Florianópolis nos dias 7, 8 e 9 de agosto, ao representar Santa Catarina no 62º Festival do Folclore Brasileiro, em Olímpia, São Paulo.Ali estava um grupo formado por manezinhos raiz e também por manezinhos de coração.Juntos, mostraram ao público de Olímpia e ao Brasil uma das manifestações mais genuínas da cultura catarinense e, particularmente, da cultura ilhéu.
Levaram personagens, cantorias e brincadeiras. Mas levaram também uma mensagem sobre pertencimento, acolhimento e convivência.
No grupo, convivem diferentes gerações. Há a sabedoria de Dona Ia, com mais de 90 anos, e a pureza e a alegria do pequeno Antônio, de 03 anos de idade. Entre eles, muitas outras pessoas que dedicam tempo, talento e afeto à brincadeira.
E todos são importantes.
São importantes os que estão há décadas no grupo e os que chegaram recentemente. Os mais velhos, que guardam as histórias, e as crianças, que garantem a continuidade. Os que nasceram em Florianópolis e aqueles que vieram de fora. Essa talvez seja uma das maiores riquezas do Boi de Mamão: ele não precisa excluir para preservar.
Ao contrário, preserva justamente porque sabe acolher. E, ao participar do Festival do Folclore Brasileiro, em Olímpia, o Brinca Meu Boi mostrou que uma manifestação cultural pode representar muito mais do que uma brincadeira. Pode ser uma forma de contar a história de um povo e, ao mesmo tempo, uma experiência concreta de convivência entre diferentes gerações, culturas e origens.
Mostrou também que o encontro produz riqueza.
Florianópolis é, sim, uma cidade da inovação. É referência em tecnologia, empreendedorismo e novas ideias. Mas é também a cidade do encontro, do lúdico, da cultura popular e da memória.
E talvez esteja justamente aí um dos seus maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma de suas maiores oportunidades: inovar sem perder suas raízes.
Preservar uma tradição não significa permanecer parado no passado. Significa saber de onde viemos para compreender melhor o futuro que queremos construir.
O Boi de Mamão nos ensina isso de uma maneira simples: brincando.
Brinca o velho. Brinca a criança. Brinca quem nasceu na Ilha. Brinca quem chegou depois. Brinca quem conhece a tradição e quem está descobrindo agora.
E, quando todos brincam juntos, a cultura permanece viva.
Por isso, o Boi de Mamão é uma expressão de identidade, pertencimento, resistência e acolhimento.
É Florianópolis olhando para o futuro sem esquecer quem é.
É cultura em movimento.
É encontro de gerações.
É tradição que se reinventa.
É Boi de Mamão. É made in Floripa.
Vilmar Dal Bó é doutor e mestre em Ciências Econômicas e Políticas, e pós-doutor em Antropologia Cultural.







