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Brincar e aprender a ler e a escrever já na educação infantil, é possível?

Crianças exploram mapas e globos terrestres em atividade lúdica que estimula a curiosidade, a imaginação e a aprendizagem por meio de diferentes linguagens.
Crianças exploram mapas e globos terrestres em atividade lúdica que estimula a curiosidade, a imaginação e a aprendizagem por meio de diferentes linguagens.

Profissional da rede municipal de ensino de Florianópolis fala da transição da educação infantil para o ensino fundamental

O meu filho, que está na creche, irá para o ensino fundamental alfabetizado? E como será a mudança dele para essa nova etapa da educação? As expectativas rondam diversos lares. A professora da rede municipal de ensino de Florianópolis e mestranda em Educação Inclusiva, Nathália Luciano Cardoso, explica esses dois casos. As suas considerações se baseiam no documento da Secretaria Municipal de Educação (SME), intitulado “Orientações Curriculares para o Processo de Transição entre a Educação Infantil e Ensino Fundamental da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis”.

Para a pedagoga, a aquisição da linguagem oral e escrita é um processo de construção que se dá ao longo de todos os grupos da educação infantil. “Desde muito pequenas, as crianças convivem com a escrita em diferentes contextos sociais e vão elaborando hipóteses sobre o que a cultura escrita representa e como funciona.”

Profissional do Núcleo de Educação Infantil Municipal Coqueiros, ela entende que o maior objetivo dos profissionais, para contribuir com esse processo, seja propiciar que as crianças sintam necessidade e curiosidade pelo mundo da escrita: que queiram ler o universo à sua volta e utilizem o código escrito para manifestar seus interesses e desejos. “Nesse processo, o imaginário infantil, as interações e as brincadeiras são fundamentais”, acrescenta.

Conforme a professora, que atua na pré-escola, com a faixa etária entre 4 e 6 anos, o letramento “ganha vida”, por exemplo, por intermédio de cartas e bilhetes,que merecem respostas, trocados entre colegas, com outras turmas e com a própria direção da unidade educativa. Ou mapas construídos coletivamente e muitos enigmas que exigem das crianças a função de pesquisadoras. “Assim, elas tornam-se autoras e leitoras ativas”.

Da mesma forma, as saídas de estudo previstas no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da creche, os percursos investigativos pela cidade, por praias e trilhas, transformam-se em experiências concretas de leitura pelas crianças. As placas, as marcas do patrimônio e a sinalização dos caminhos percorridos convidam a todos a decifrarem o ambiente e instigam o grupo a registrar e ressignificar o vivido.

“Busco, pelo imaginário, nutrir a curiosidade e o encantamento das crianças, para que aprendam a se expressarem pelo código escrito, uma vez que elas encontraram na palavra um meio autêntico de intervir no mundo e nele deixar suas próprias marcas”.

Na sala de referência, Nathália registra as falas, hipóteses e investigações das crianças, tornando visível como o pensamento se transforma em texto. Ao mesmo tempo, garante a presença de múltiplas linguagens, como as visuais e sonoras, e a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), “para que nenhuma voz deixe de ser ouvida. A CAA reúne recursos e estratégias, como imagens, símbolos, gestos e pranchas de comunicação, que ampliam ou complementam a fala e a escrita. Assim, todas as crianças podem participar, expressar-se e serem compreendidas.

*Transição com planejamento*

Quando meninos e meninas completam 6 anos de idade até o mês de março, naquele ano letivo eles devem freqüentar obrigatoriamente o ensino fundamental.

A professora Nathália Luciano Cardoso compreende que se trata de um processo a ser pensado com antecedência, envolvendo crianças, familiares e professores das duas etapas: da educação infantil e do ensino fundamental.

Haverá novidade de espaços, tempos, rotinas, colegas e professores, além de outras formas de organização do trabalho pedagógico. “Quando essa passagem acontece sem um olhar atento, pode gerar insegurança, ansiedade e a sensação de ruptura com relação ao que as crianças vivenciaram até então”, frisa.

Nathália pondera que quando esse movimento é planejado com intencionalidade permite que as crianças conheçam um pouco sobre o que está por vir, expressem suas curiosidades, dúvidas e expectativas, e se sintam bem. “Desta forma, serão respeitadas como sujeitos ativos desse processo, e não apenas como alunos que estão simplesmente mudando de etapa escolar.”

A transição ocorre diariamente quando as crianças exercitam sua autonomia nos espaços dos núcleos de educação infantil e participam das rodas de conversa sobre o tema. Também acontece por meio de ações que a aproximam dessa nova etapa em diálogos a respeito de como imaginam e o que esperam da nova escola e visita a espaços de ensino fundamental que serão freqüentados por elas. Encontros e trocas com as crianças do 1º ano também é uma boa estratégia. “É importante escutá-las, considerar suas falas, curiosidades e receios, tornando-as participantes ativos desse processo”, complementa a professora.

Como muitas famílias se sentem inseguras, é fundamental, avalia Nathália, que o Neim promova momentos de conversa e informações, acolhendo suas duvidas e expectativas, já que elas vivem essa passagem junto com as crianças.

Já no ensino fundamental, avalia a profissional, que cabe ao professor amparar as crianças, conhecendo e valorizando o que foi construído na educação infantil. “Isso significa reconhecer os saberes e experiências que elas já trazem, dando continuidade ao processo de alfabetização, sem se esquecer que enquanto crianças existem direitos que devem ser garantidos, como o a brincadeira, ao imaginário e a ludicidade.”