Blog do Prisco
Manchete

Camilo construiu a presidência antes de a eleição terminar

A vantagem de Camilo Martins na disputa pela presidência da Assembleia Legislativa não nasceu depois da abertura das urnas. É resultado de uma construção que atravessou praticamente toda a primeira legislatura do deputado. Conversa, aproximação, ajuda a colegas e capacidade de negociar foram preparando o terreno para o movimento que agora o coloca como favorito à sucessão de Julio Garcia.

Já na primeira tentativa, ainda estreante na Casa, Camilo articulou uma candidatura que chegou perto de alcançar o comando do Parlamento. Não conseguiu, mas continuou trabalhando. Em vez de guardar o projeto para a eleição seguinte, passou o mandato construindo as relações necessárias para viabilizá-lo.

O caminho foi preparado

Ainda no Podemos, Camilo dialogava com os próprios correligionários e com integrantes das demais bancadas. Ao migrar para o PL, levou o projeto junto.

Nos bastidores da mudança partidária, comunicou a Jorginho Mello que trabalharia para ser presidente da Assembleia. Recebeu sinal verde para construir os apoios. Depois da eleição, voltou a tratar do assunto com o governador e manteve a articulação.

Nesse percurso, aproximou-se de vários deputados e ajudou na campanha de colegas, especialmente do PL. Relações que não se resumiam a pedir votos para a Mesa Diretora: foram sendo cultivadas antes de a disputa chegar à fase decisiva.

Reeleito com 63.933 votos, Camilo entrou na negociação com respaldo eleitoral e uma rede de interlocução já formada.

Votação e articulação

Ana Campagnolo, com 387.523 votos, surgiu naturalmente como um nome de peso para a presidência. A maior votação da história da Assembleia lhe conferiu uma força política que ninguém poderia ignorar.

Mas a eleição da Mesa tem outra dinâmica. O eleitorado é formado pelos próprios deputados. E, nesse ambiente, Camilo havia avançado mais na construção dos apoios.

A diferença estava no trabalho acumulado durante a legislatura. Com habilidade e paciência, ele conquistou espaço numa bancada de personalidades distintas e ajudou a produzir uma unidade que estava longe de ser automática.

A composição com Ana

Camilo pretendia exercer o biênio inteiro. A composição, porém, exigiu uma concessão.

Deputados que reconhecem a contribuição da votação de Ana para o desempenho eleitoral do PL defenderam que ela também tivesse um período no comando. Camilo cedeu, e o entendimento passou a prever sua permanência até meados de 2028, com a deputada assumindo a etapa final do primeiro biênio. O próprio parlamentar confirmou publicamente esse desenho.

É uma divisão diferente do revezamento de um ano para cada presidente que marcou outros acordos na Casa. O calendário exato da transição precisará ser formalizado, mas o sentido político está definido: Camilo começa, Ana conclui.

A concessão reconhece o peso eleitoral da deputada e preserva a unidade do partido. Quem pretende presidir um Parlamento precisa saber a hora de ceder para consolidar uma maioria.

O serviço para Jorginho

Camilo facilitou a vida do governador. Uma disputa prolongada dentro do PL acabaria exigindo a intervenção direta de Jorginho para acomodar interesses e impedir que a divisão entregasse a presidência a outra bancada.

A construção do entendimento reduziu esse risco. Jorginho respaldou o movimento, e seu apoio ajudou a ampliar a maioria para além do partido. Camilo, inclusive, reconheceu publicamente a importância do governador nessa articulação.

Há mérito dos dois lados: Camilo preparou o terreno e negociou a composição; Jorginho deu sustentação política ao fechamento.

De 21 para 27

O movimento ganhou velocidade. A articulação que começou a semana na marca dos 21 apoios chegou ao fim dela com 27, segundo o levantamento divulgado na sexta-feira. A três meses da eleição da Mesa, prevista para 1º de fevereiro de 2027, é uma vantagem considerável.

Na Assembleia, quem reúne uma maioria costuma atrair novas adesões. As bancadas passam a negociar participação na Mesa e nas comissões, e o espaço para uma candidatura adversária diminui.

Camilo poderá ultrapassar os 30 apoios se mantiver esse ritmo. A unanimidade é uma possibilidade, embora ainda dependa das conversas. A composição deve contemplar também a esquerda, respeitando o tamanho das bancadas.

O cálculo de Sérgio

Nesse cenário, merece atenção a posição de Sérgio Guimarães, também ligado a Palhoça. Com 87.761 votos, ele obteve a terceira maior votação estadual e tem força para participar das discussões sobre a sucessão municipal de 2028.

Uma eventual rivalidade local, porém, não torna necessariamente vantajoso enfrentar Camilo na Assembleia.

Se a candidatura à presidência caminhar para um apoio quase unânime, ficar isolado poderá produzir mais desgaste do que dividendos. Sérgio terá de avaliar se vale transformar uma possível disputa futura pela prefeitura em resistência a um acordo estadual já amplamente encaminhado.

Palhoça no horizonte

A concessão feita a Ana também se encaixa no projeto municipal de Camilo. Uma saída da presidência em meados de 2028 permitiria concentrar esforços numa eventual candidatura à Prefeitura de Palhoça, possibilidade já mencionada nas articulações.

Camilo governou o município por dois mandatos, de 2013 a 2020. A experiência administrativa será um de seus principais argumentos se decidir retornar.

Eduardo Freccia, seu sucessor e aliado, apoiou sua candidatura à Assembleia neste ano. Se essa parceria se mantiver na eleição municipal, somada ao respaldo de Jorginho, Camilo poderá reunir os governos municipal e estadual em torno de seu retorno.

Sérgio tem comunicação, votação e presença política. Uma disputa pelo Executivo, entretanto, exige demonstrar também capacidade de administrar. Camilo poderá apresentar a experiência de quem já ocupou a cadeira.

Uma construção de longo prazo

A presidência da Assembleia e a possível volta à prefeitura fazem parte de um caminho que Camilo vem preparando com antecedência. A eleição formal ainda precisa acontecer, e os acordos terão de ser cumpridos. Mas ele chega a essa etapa com uma vantagem que não se explica apenas pelo apoio do governador ou pelo tamanho da bancada.

Camilo não esperou a eleição terminar para começar a conversar. Quando os demais olharam para a presidência, ele já havia percorrido boa parte do caminho.