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Ciência ou medicina? … e agora Doutor?

Luiz Gonzaga Coelho – Gestor Hospitalar

Estamos vivenciando o travamento de duas guerras: uma na cabeceira do leito do paciente, contra a letalidade da Covid-19, e outra em campos de batalhas que muitas vezes não são os que nos levarão à vitória.

Há um conflito sadio que se trava entre a medicina e a ciência. Aqui, denomino como “medicina” as ações do profissional médico que está à beira do leito tratando o seu paciente, e que colocará tudo o que estiver ao seu alcance para preservar a vida. Quanto à “ciência”, refiro-me ao processo e ao método científico que exige estudos randomizados em duplo cego e com grupo de controle. Este segundo, fundamenta, disciplina e encontra os instrumentos (terapias, técnicas, protocolos e medicações) para que o primeiro (medicina) possa ter eficácia e salvar vidas. Esses estudos permitem, então, comprovar a eficácia de uma terapia e também podem servir para descartar qualquer interesse individual ou econômico de interferir nos resultados.

Todavia, estamos vivenciando um problema de “discurso”, e este sim, está ceifando vidas antecipadamente.

O problema não está propriamente dito no conflito entre a medicina e a ciência, como descrevi acima, pois este conflito, no caso da presente urgência, deveria ser a base para o encontro de uma solução, a mais apropriada, a mais segura e a menos letal.

O problema está na utilização “cega” deste discurso, que tenta impedir uma abordagem holística das terapias disponíveis visando à redução da carga viral, do aumento das defesas do organismo e, por fim, do tratamento dos sintomas.

Alguns usam a crítica exacerbada às terapias já comprovadas na prática e em sérios estudos retrospectivos com resultados positivos, utilizando-se da retórica da “ciência”. Outros se valem de experiências “tous azimuts”, muitas vezes sem fundamentos científicos, mas bradando soluções ocasionalmente não quantificáveis, e sobretudo, pouco verificáveis. Ambos os lados, na busca desenfreada de comprovar suas certezas, conduzem ensaios e estudos dirigidos, retrospectivos, utilizando-se de grupos de casos que mais lhes convém para chegarem aos resultados que esperam, buscando comprovar somente aquilo que eles mesmos acreditam, e forçam toda a sociedade a se aliar numa posição consolidada, de prós ou contras.

Estamos vivenciando o travamento de duas guerras: uma na cabeceira do leito do paciente, contra a letalidade da Covid-19, e outra em campos de batalhas que muitas vezes não são os que nos levarão à vitória.

O que me deixa perplexo neste cenário, é que justamente aquele discurso que poderia trazer alento, esperança e força para a sociedade poder combater de frente o grave problema que é o novo coronavírus, é literalmente linchado pelo lado oposto, que se aproveita da retórica da defesa da ciência para inibir qualquer tentativa de solução, alguns até agindo como verdadeiros “torcedores” do quanto pior, melhor. Assim, abafam todos os bons resultados alcançados por diversos centros de saúde espalhados pelo Brasil afora, mas sobretudo, impedem que a “ciência” venha contribuir trazendo luz e certezas no aprimoramento dos protocolos e das terapias.

Periclitando o enredo, estas mesmas pessoas que se “vestiram” de defensores da ciência a qualquer preço, induziram governantes ou seus conselheiros a assumirem um lado, o lado deles, e de seguirem única e exclusivamente os seus dogmas, traduzidos nas seguintes palavras de ordem: milhões morrerão; não tem cura; não usem máscaras; fique em casa; se ficarem doentes, tomem paracetamol; não saiam de casa; usem máscaras; consultem um médico somente com falta de ar; economia se recupera, vidas não; milhões morrerão, e por fim, suprimam as liberdades individuais dos cidadãos.

Sem querer entrar na seara dos problemas econômicos que seguirão como um tsunami afetando diretamente a saúde física e mental, assim como a vida de milhões de famílias brasileiras (agora sim este quantitativo não é exagero), este dogmatismo cego está também aniquilando as oportunidades que nosso sistema de saúde dispõe como aliados para combater o vírus e salvar vidas.

Temos um sistema de saúde universal (SUS) que apesar das críticas que recebe tem uma grande capilaridade e uma imensa capacidade de acolhimento. Temos também uma classe médica competente e muito bem formada, capaz de atender essa urgência com o mais alto nível de qualidade e eficácia. Sobretudo, temos uma medicina suplementar pujante, que além de permitir que o paciente possa escolher o seu médico ou especialista, também pode permitir que o paciente possa escolher, dentre as terapias sugeridas, aquela que lhe convém. Essa força da medicina suplementar, em muitos casos e em muitos estados do Brasil, exerceu um verdadeiro contágio, induzindo os profissionais da rede pública a se adaptarem a protocolos diferentes daqueles orientados pela OMS, que trouxeram resultados positivos por terem sido aplicados no hospital ou na clínica vizinha.

Porém, apesar desses avanços – e quando se trata do salvamento de vidas, qualquer resultado deve ser comemorado –, eles esbarram na retórica que induz as orientações e comunicações com a sociedade, prevalecendo o status quo do #fiqueemcasa e não consulte um médico ou posto de saúde, a não ser que você esteja com dificuldades para respirar.  Como não médico, mas como observador do sistema por dentro, posso garantir que para muitos casos, esse momento será tarde e implicará na utilização de recursos ainda maiores.

Sem medo de errar e sem correr o risco de perder a licença de médico que não tenho, acredito que uma correção nos protocolos de instrução à população e oferecendo a liberdade aos médicos de aplicarem os protocolos que eles acharem devidos para cada caso e para cada momento, evitaríamos um número expressivo de internações em UTIs e a necessidade de ventiladores mecânicos, diminuindo a letalidade. Claro, se necessário, internando com antecedência os pacientes que possam correr qualquer risco com as terapias sugeridas, para um acompanhamento seguro e breve.

A ciência pôde prover conhecimento e competência para que nossos médicos pudessem, com meios e terapias disponíveis e comprovadas, reduzir a carga viral, aumentar a proteção do organismo e tratar os sintomas respiratórios e hematológicos, mas o discurso vigente tenta a todo preço o impedir de alcançar qualquer resultado.

A relação de confiança que naturalmente é estabelecida entre o paciente e o seu médico é forte o bastante e na grande maioria dos casos é inabalável. Mais do que nunca, devemos promover o fortalecimento dessa relação, criando as condições e orientações para que seja iniciada desde os primeiros sintomas. Os médicos que hoje estão na linha de frente têm a competência de orientar e propor as melhores terapias para cada momento da doença e para cada paciente, visando tão somente à preservação da vida.

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