O MDB catarinense entrou, definitivamente, em território de confronto aberto — e com poucos precedentes recentes na sua história. A sequência dos fatos é eloquente: primeiro, a reunião robusta da ala emedebista alinhada ao governador Jorginho Mello, reunindo uma expressiva base política — senadora, deputados, dezenas de prefeitos e lideranças municipais. Na sequência, a resposta do presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, por meio de uma nota dura, direta e carregada de simbolismo político.
A manifestação de Chiodini, correta na forma e no conteúdo sob sua perspectiva como dirigente partidário, não deixa margem para ambiguidades. Trata-se, na prática, de um rompimento político com o atual governo — ainda que não formalizado nos termos clássicos. Ao afirmar que o MDB não aceitará ser “coadjuvante” nem “linha auxiliar de um governo que não nos respeita”, o presidente estadual fecha a porta para qualquer composição nos moldes que vinham sendo ventilados, especialmente a possibilidade de o partido integrar a chapa de reeleição de Jorginho Mello em posição secundária.
O ponto central da crise, porém, vai muito além da divergência estratégica. O que está em jogo é o controle político e simbólico do MDB em Santa Catarina.
De um lado, Chiodini sustenta a legitimidade institucional: decisões da executiva, de diretórios municipais e de um projeto próprio com vistas à disputa majoritária. Seu discurso é ancorado na ideia de reorganização partidária, após dois ciclos eleitorais (2018 e 2022) de perda de protagonismo.
De outro, a realidade política exposta na reunião pró-governo é incontornável: a maioria expressiva das lideranças com mandato — prefeitos, vice-prefeitos, parlamentares — sinaliza preferência por uma aliança com o atual governador. Trata-se de capital político concreto, territorializado, que não pode ser ignorado.
É exatamente nesse ponto que a nota de Chiodini assume caráter de divisor de águas.
Ao criticar, ainda que de forma indireta, lideranças que “não têm compromisso com a história do partido”, o presidente tensiona a relação com um grupo numericamente bem superior dentro da sigla. E mais: ao desqualificar o movimento pró-aliança como “apequenamento”, ele transforma uma divergência tática em um embate de identidade partidária.
O efeito colateral é imediato: a unidade do MDB entra em xeque como raramente se viu.
Há, inclusive, um paradoxo evidente. Chiodini pode, sim, prevalecer em uma eventual convenção partidária — especialmente pelo controle das instâncias formais. No entanto, a vitória institucional pode vir acompanhada de uma derrota política substantiva, caso a maior parte das lideranças com densidade eleitoral opte por trabalhar por Jorginho Mello.
Em termos práticos, desenha-se um cenário clássico de cisão:
— de um lado, o “CNPJ” partidário, sob comando formal;
— de outro, o “CPF” político, representado por prefeitos, parlamentares e bases eleitorais.
Essa dissociação, se consolidada, fragiliza qualquer projeto para 2026, com reflexos já em 2028 e também em 2030.
Outro aspecto relevante é o timing. A nota surge logo após uma reunião que demonstrou força e capilaridade da ala governista dentro do MDB. Ou seja, não foi apenas uma resposta política — foi também uma tentativa de reafirmação de autoridade diante de um movimento que, na prática, desafiou a condução estadual do partido.
Chiodini, portanto, age com firmeza e coerência dentro da sua linha estratégica. Mas assume um risco elevado: o de conduzir o MDB a uma disputa interna cujo desfecho pode ser um partido formalmente unificado, porém politicamente fragmentado — ou, no limite, esvaziado. E, posteriormente, implodido.
No horizonte, uma variável decisiva permanece: a reeleição de Jorginho Mello. Caso o governador consolide a já demonstrada força eleitoral, a pressão sobre quadros emedebistas tende a aumentar, ampliando o risco de migração ou desalinhamento definitivo.
O MDB catarinense chega, assim, a um ponto de inflexão. Não se trata mais de discutir se será protagonista ou coadjuvante — mas de definir, antes disso, quem fala pelo partido e com qual base de sustentação.
A seguir, a íntegra da nota do presidente estadual do MDB-SC, Carlos Chiodini:
“Caro amigo emedebista,
Chegou a hora de falar com clareza, sem rodeios e sem medo. O momento que o MDB de Santa Catarina atravessa exige coragem, não silêncio.
Em 1999, filiei-me ao PMDB com apenas 17 anos. Não foi um movimento oportunista; foi uma escolha de vida. De lá para cá, enfrentamos batalhas duras, disputamos eleições difíceis, ajudamos a construir governos e fomos protagonistas em momentos decisivos do nosso Estado. O MDB sempre foi grande porque pensava grande.
Mas os números recentes mostram uma realidade que não pode ser ignorada. Em 2018, ficamos fora do segundo turno do Governo do Estado. Em 2022, novamente não chegamos ao segundo turno. O reflexo foi direto: redução das nossas bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, perda de espaço político e enfraquecimento da nossa capacidade de liderar Santa Catarina.
Diante disso, o caminho natural seria a reconstrução com protagonismo: retomar o nosso espaço, organizar o partido, fortalecer lideranças e preparar o MDB para voltar à majoritária, mas não como coadjuvante.
Após ser esnobado e preterido pelo atual Governo no início deste ano, o MDB, em vez de se posicionar com firmeza, assiste à construção de um movimento conduzido por pessoas que, até ontem, não tinham qualquer compromisso com a nossa história. Um movimento que tenta empurrar o partido para uma aliança subordinada, baseada em interesses pontuais, como uma eventual suplência ao Senado, e não em um projeto real que respeite o tamanho de uma sigla que ajudou a construir Santa Catarina.
Isso não é estratégia. Isso é apequenamento.
É preciso dizer com todas as letras: o MDB não nasceu para ser figurante. Não nasceu para aceitar migalhas. Não nasceu para ser linha auxiliar de um governo que não nos respeita, não na minha gestão como presidente.
Quero deixar claro: se estivesse pensando em um projeto pessoal, já teria ocupado espaços, cargos ou feito qualquer composição conveniente. Caminhos não faltaram. Porém, nunca foi esse o meu compromisso. Tenho uma trajetória de lealdade ao partido, não de conveniência pessoal.
O que está acontecendo hoje é grave. Aos 60 anos, o MDB de Santa Catarina corre o risco de se transformar em um partido fragmentado, de decisões isoladas, onde interesses individuais se sobrepõem ao projeto coletivo. Um partido que deixa de liderar para apenas acompanhar.
Precisamos reagir. O MDB tem tamanho, história, capilaridade e liderança para disputar a majoritária. Vamos respeitar os diretórios municipais que decidiram estar em um projeto de verdade, que votaram a favor de compor a chapa com PSD e União Progressista. Aos líderes partidários que promoveram o episódio de ontem, deixo um alerta: se não enfrentarmos esta batalha hoje, em dois, quatro, seis anos, não teremos nada para disputar.
Ou o MDB volta a ser grande, ou aceitará, pouco a pouco, a irrelevância. Essa é a escolha que está diante de todos nós.
Carlos Chiodini
Presidente do MDB de Santa Catarina
Santa Catarina, 28 de abril de 2026”







