O problema das drogas ultrapassa a esfera da saúde pública e da segurança, alcançando dimensões sociais profundas e dolorosas.
Entre as suas consequências mais preocupantes está a vulnerabilidade de milhares de mulheres que, direta ou indiretamente, acabam envolvidas com a prostituição como forma de sobrevivência ou para sustentar a dependência química.
A relação entre drogas e prostituição não pode ser analisada de forma simplista, superficial ou ainda amadora.
Muitas mulheres iniciam o consumo de substâncias psicoativas em contextos marcados pela pobreza, violência doméstica, abandono familiar ou falta de oportunidades.
Em outros casos, o ingresso na prostituição ocorre primeiro, sendo as drogas utilizadas posteriormente como mecanismo para suportar o sofrimento emocional, os riscos da atividade e as humilhações, ameaças, vergonha, enfrentadas diariamente.
O ciclo que se estabelece é muito cruel.
A dependência química aumenta a necessidade de recursos financeiros, levando muitas mulheres a aceitarem situações cada vez mais degradantes e perigosas.
Ao mesmo tempo, a prostituição frequentemente as expõe ao consumo de drogas, fortalecendo a dependência e dificultando qualquer possibilidade de reinserção social.
As consequências são devastadoras. Além dos danos físicos e psicológicos causados pelas substâncias, muitas mulheres enfrentam doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, violência física, exploração sexual e discriminação social.
Frequentemente, perdem vínculos familiares, oportunidades de trabalho e a própria autoestima.
Entretanto, é fundamental compreender que essas mulheres não devem ser vistas apenas como números estatísticos ou casos de polícia.
São seres humanos que necessitam de acolhimento, tratamento adequado e oportunidades reais de reconstrução de suas vidas.
A repressão ao tráfico de drogas é necessária, mas, isoladamente, não resolve o problema.
Investimentos em prevenção, educação, qualificação profissional, assistência social e tratamento especializado para dependentes químicos são caminhos indispensáveis.
Da mesma forma, comunidades terapêuticas sérias, centros de atenção psicossocial, organizações religiosas, entidades assistenciais e clubes de serviço podem desempenhar papel relevante no apoio à recuperação e à reintegração social.
As entidades acima citadas, em especial as comunidades terapêuticas, já tem desempenhado um papel importante, que inicia muitas vezes, com o resgate nas ruas, carecendo tais dependentes, primeiro de um banho, roupas novas, alimentação, uma boa cama e noite de sono…depois, precisam ser apresentados a um plano terapêutico bem elaborado, espiritualidade, acompanhamento com assistentes sociais, psicólogos, etc.
A sociedade também precisa abandonar o preconceito e compreender que a dependência química é uma doença complexa, que exige respostas humanizadas e integradas.
Nenhuma mulher sonha em viver aprisionada pelas drogas ou pela exploração sexual. Quando oferecemos oportunidades, acolhimento e esperança, abrimos portas para que histórias de sofrimento possam ser transformadas em trajetórias de superação.
Combater as drogas significa também proteger mulheres, preservar famílias e fortalecer a dignidade humana.
Essa é uma responsabilidade que pertence a todos nós.
As mulheres nasceram para serem felizes, viverem com dignidade, sendo e vivendo como quiserem.
Ser livre é poder estar livre das drogas, da prostituição, da humilhação, sem degradação humana…
O que estamos esperando para garantir tais direitos básicos ?
Só seremos realmente desenvolvidos, viveremos em um país democrático, quando todos puderem viver sem amarras, ameaças, subordinações, dependentes de vícios.
FERNANDO HENRIQUE DA SILVEIRA
– Presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes de Santa Catarina – CONEN;
– Membro Consultivo da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB/SC;
– Advogado, com pós-graduação em Direito Penal e Processual Penal pela Escola do MPSC;
– Doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais.







