O PSD tenta vender como exercício democrático aquilo que, na prática, foi uma decisão verticalizada. A definição de Ronaldo Caiado como candidato à Presidência expôs mais uma vez o modus operandi de um partido que orbita em torno de seu comando nacional, sob a batuta de Gilberto Kassab.
Não há muito espaço para eufemismos: tratou-se de uma escolha solitária, sem processo interno transparente, sem prévias, sem debate público consistente. A retórica de “democracia interna”, vocalizada por Ratinho Júnior, soa mais como peça de conveniência do que como descrição fiel da realidade.
Um dos exemplos mais recentes é a questão do vice de Tarcísio de Freitas em São Paulo. Kassab indicou o atual vice-governador, Felício Ramuth, mas como ele quer ser o nome a compor chapa com o governador, Ramuth deve deixar o “democrático” PSD e assinar ficha no MDB.
O primeiro efeito colateral já se materializou. Eduardo Leite, que vinha se movimentando intensamente para viabilizar seu nome — inclusive tendo migrado para o PSD antes de Caiado — reagiu com evidente desconforto.
Mais do que isso: sinalizou que pode não se engajar na campanha presidencial e decidiu permanecer no governo gaúcho, abrindo mão de disputar o Senado. Um movimento que, na prática, representa um recado político claro — e duro — à direção partidária.
O episódio reforça uma leitura já consolidada nos bastidores: o PSD funciona como um partido de comando centralizado, onde a vontade do presidente se sobrepõe às aspirações regionais.
A metáfora é conhecida — e cada vez mais recorrente: um partido de caciques, com pouca organicidade de base.
Quando dois dos seus principais quadros — Ratinho Júnior e Eduardo Leite — optam por não entrar no jogo presidencial após a decisão, o diagnóstico é inevitável: há fissuras internas relevantes.
Reflexo Sul
No Sul do país, o cenário se torna ainda mais delicado.
No Paraná, a influência de Sergio Moro e sua aproximação com Flávio Bolsonaro tendem a deslocar o eixo da disputa para o campo bolsonarista. Nesse contexto, o apoio de Ratinho Júnior a Caiado soa mais protocolar do que efetivo.
E em Santa Catarina, o quadro é ainda mais evidente.
O eleitorado catarinense, majoritariamente alinhado à direita, mantém forte identificação com o grupo político de Jair Bolsonaro. Nesse ambiente, Caiado tem baixa densidade eleitoral.
Sua candidatura, embora consistente em nível nacional, carece de enraizamento regional no Sul, especialmente em Santa Catarina.
Para o PSD catarinense, o problema é estratégico.
A escolha de Caiado não gera tração local e tampouco dialoga com a realidade eleitoral do estado. Ao contrário: pode empurrar lideranças e eleitores para um alinhamento informal com Flávio Bolsonaro, mesmo que dentro de outras estruturas partidárias.
Cria-se, assim, uma desconexão entre o projeto nacional e as dinâmicas regionais — um erro clássico em eleições majoritárias.
O PSD fez sua escolha. Mas, ao fazê-lo da forma como fez, expôs fragilidades que vão além da disputa presidencial.
Sem coesão interna, sem capilaridade uniforme e com dificuldades de alinhamento regional, o partido entra na corrida com um candidato definido — mas sem unidade consolidada.
E, em política, isso costuma cobrar um preço alto.







